Arquivo de março \31\UTC 2010

– Nosso Amor Do Passado –

 
Ninguém me conhece da maneira que você ousou.
Ninguém foi tão profundo e eu vou usar o mar como metáfora, um dos meu maiores medos, e resistiu por tanto tempo.
O que me assusta e não deveria é que não estou dando um peso maior ao fato.
Ou organizando as palavras de forma meticulosa para parecer misterioso ou interessante.
Não. De fato, ninguém sabe tanto sobre mim.
Do que não é visível.
Do que não se percebe ao observar, da forma que você…
Eu não sei completar essa frase.
Você conhece tudo o que não é agradável.
Você sabe quando estou agindo de forma educada somente para cumprir formalidades.
Sabe quando eu concordo querendo explodir palavrões.
Das ironias, dos segredos, dos armários, das insatisfações, receios e despudores.
Dos pecados, todos eles e os seus desdobramentos, você sabe.
Algumas vezes sorri para eles e me respeita.
E que me ensina a ser.
Quase sempre.
Você sabe do que me desagrada, do que me incomoda, do que me paralisa e não sei se é comum alguém saber tanto do outro, mesmo depois de tanto tempo.
Eu não sei se é natural alguém conhecer sobre tanto do que é sombra em outra pessoa.
Se é trivial se deixar radiografar sem garantias porque com gente é assim:
Sem garantias.
Gostaria de qualquer rede de segurança, qualquer direito que me protegesse, mas se eu resolver listar tudo o que eu gostaria poderia escrever por três dias.
Meses, talvez.
Provavelmente, eu não sei tanto sobre você.
Não me aflige não saber.
Não saber, na verdade, me salva.
Não saber, de uma forma bem sarcástica, é minha garantia…
Ninguém sabe tanto dos meus vulcões ou suportou por tanto tempo todo tremor de terra.
Sei também eu das tuas e dos teus desvios, conheço os atalhos, sei da roupa amassada, da fome gigantesca, de quando os holofotes descansam e a maquiagem derrete.
Da lágrima que ninguém viu, eu sequei cada uma.
Aqui vou me desdizer e deixar de ser poeta:
É recíproco – sim – porque ambos compreendemos que é preciso alguém para dividir qualquer tesouro empoeirado ou não. Companheiros, me sopra o racional se não fosse essa leve sensação de não se deixar tocar, de te exigir atitudes, mendigar migalhas.
Eu, com reserva para tantos invernos.
Camille Claudel que me assalta a sensação de não satisfação e que não chega a ser nada além de uma sensação tola que não esbarra na história real de nós dois.
Ninguém nunca me resistiu por tanto tempo.
Ao meu amor.
Carinho.
Ou qualquer outra urgência branda.
Ninguém foi tão meu amigo por tantas quadras, me entregando a sensação de que cada dia é um novo dia.
Nova página para rabiscar, ávidas crianças diante da tinta abundante e plural.
Ciente dos cuidados, da conquista que se refaz feito tecelão dos bons diante da sua melhor roca.
Era sobre isso que eu queria escrever:
Sobre essa responsabilidadede ser e estar que a gente vai honrando com sal pimenta e um açúcar nada amargo.
(Hans Canosa)

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– Prosseguir –

Mamãe disse-me um dia quando ainda era pequena, que a gente não chora por amor.

E se chora cada gota de lágrima é um pouco do amor que vai embora.
Guardei.
Hoje, levo umas cenas que pintamos juntos.
Umas pancadas do lado de dentro que nos demos, nossa afinidade descontrolada…
O intenso e o delicado das oscilações junto com a certeza da minha segurança.
Levo lamúrias sertanejas, conversas sem fim, fumaça.
Muita fumaça ao teu lado.
Guardei.
Guardamos.
E o que extrapole, fica resevado aos que hão de vir.
E virão.
Se dói?
Dói.
Mas deixa explodir.
Minhas verdades valem, porque eu acredito no que é belo.
Eu entro, arranco, finco, pinto, desenho.
Desbaratino e devolvo.
Como um sopro que arranca de mim um alívio doente.
Praga.
Parece.
Hoje sou vermelha e você, cinza.
Insisto no que é colorido e acredito quando meus olhos brilham.
Insisto no que é lindo.
E verdadeiro.
E o bom da vida vai prosseguir…

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A Separação Como Um Ato de Amor

É sabida a dor que advém de qualquer separação, ainda mais da separação de duas pessoas que se amaram muito e que acreditaram um dia na eternidade deste sentimento. A dor-de-cotovelo corrói milhares de corações de segunda a domingo — principalmente aos domingos, quando quase nada nos distrai de nós mesmos — e a maioria das lágrimas que escorrem é de saudade e de vontade de rebobinar os dias, viver de novo as alegrias perdidas.

Acostumada com esta visão dramática da ruptura, foi com surpresa e encantamento que li uma descrição de separação que veio ao encontro do que penso sobre o assunto, e que é uma avaliação mais confortante, ao menos para aqueles que não se contentam em reprisar comportamentos padrões. Está no livro “Nas tuas mãos”, da portuguesa Inês Pedrosa.

“Provavelmente só se separam os que levam a infecção do outro até aos limites da autenticidade, os que têm coragem de se olhar nos olhos e descobrir que o amor de ontem merece mais do que o conforto dos hábitos e o conformismo da complementaridade.”

Ela continua:

“A separação pode ser o ato de absoluta e radical união, a ligação para a eternidade de dois seres que um dia se amaram demasiado para poderem amar-se de outra maneira, pequena e mansa, quase vegetal.”

Calou fundo em mim esta declaração, porque sempre considerei que a separação de duas pessoas precisa acontecer antes do esfacelamento do amor, antes de se iniciarem as brigas, antes da falta de respeito assumir o comando. É tão difícil a decisão de separar que vamos protelando, protelando, e nesta passagem de tempo se perdem as recordações mais belas e intensas. A mágoa vai ganhando espaço, uma mágoa que nem é pelo outro, mas por si mesmo, a mágoa de se reconhecer covarde. E então as discussões se intensificam e quando a separação vem, não há mais onde se segurar, o casal não tem mais vontade de se ver, de conversar, quer distância absoluta, e aí se configura o desastre: a sensação de que nada valeu. Esquece-se o que houve de bom entre os dois.

Se o que foi bom ainda está fresquinho na memória afetiva, é mais fácil transformar o casamento numa outra relação de amor, numa relação de afastamento parcial, não total. Se os dois percebem que estão caminhando para o fim, mas ainda não chegaram no momento crítico — o de se tornarem insuportavelmente amargos — talvez seja uma boa alternativa terminar antes de um confronto agressivo. Ganha-se tempo para reestruturar a vida e ainda se preserva a amizade e o carinho daquele que foi tão importante. Foi, não. Ainda é.

“Só nós dois sabemos que não se trata de sucesso ou fracasso. Só nós dois sabemos que o que se sente não se trata — e é em nome deste intratável que um dia nos fez estremecer que agora nos separamos. Para lá da dilaceração dos dias, dos livros, discos e filmes que nos coloriram a vida, encontramo-nos agora juntos na violência do sofrimento, na ausência um do outro como já não nos lembrávamos de ter estado em presença. É uma forma de amor inviável, que, por isso mesmo, não tem fim.”

É um livro lindo que fala sobre o amor eterno em suas mais variadas formas. Um alento para aqueles — poucos — que respeitam muito mais os sentimentos do que as convenções.

 

(Martha Medeiros)

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Morre-se um pouco a cada dia?

São necessárias quantas mortes durante nossa vida?

Lembrei-me da frase de Paulo Leminsk:

 “Morrer de vez em quando é a única coisa que me acalma! “

 Será?

Mas quantos ensaios para perdermos o que nos é necessário?

 Precisamos viver quantos lutos para olharmos para o inexplicável?

 Quanta produção para dar conta do inexorável que assola o cotidiano?

 Desses devaneios, lembro-me de uma invertida bem humorada e espirituosa de um amigo, um dia desses:

 Eu surtava sobre o dramático momento que passava.

Então reclamava da confusão de sentimentos, dos hormônios em conflito, da TPM, do excesso de trabalho.

 Enfim… 

Ele, do alto de seu 1 m e 60 cm, delicadamente me fez gargalhar dizendo:

 “Ana desmaia que logo passa!”

 Bastou.

 Daí, desataram-se todos meus nós tensos e aflitivos.

 Num alto e desenfreado riso só consegui responder:

 ” É mesmo um mistério a nossa vida. “

“Só desmaiando?”

 Depois desse episódio eu parei e refleti:

 Meu inconsciente é só isso?

 Esse avesso ao meu corpo eu só percebo nas frestas de meus sonhos e alguns outros lapsos?

 Ainda prefiro crer que existe um universo inteiro dentro de mim.

 Pode não ser nada belo, fantástico e colorido.

Mas é meu!!!

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– O Excesso de DOM, por Fabrício Carpinejar –

Não confio no final feliz da história de amor.

A maioria não tem nem final.

Até porque ninguém acredita que terminou.

Continua a se viver ou por um milagre, na expectativa que um dos dois quebre o pacto educado do silêncio, ou por hábito, o que nos empurra para frente são o trabalho, as necessidades dos filhos, o amparo curativo dos amigos.

Meu romance foi terrivelmente bonito.

Tão bonito que não existe rascunho.

Tentaremos narrar, surgirão fragmentos desconexos, vamos nos emocionar e lembraremos agora da raiva.

A raiva de não estarmos mais juntos.

Uma raiva sem culpados, mas com dois mortos.

E um morto não pode enterrar o outro.

Não sei quanto tempo ficaremos ao relento.

O mar talvez nos puxe por compaixão.

Por favor, não me pergunte nada dela hoje.

Não pergunte nada de mim para ela hoje.

Reinará o ódio.

Por trás dele, de todas as brigas e rumores, dos temperamentos incompatíveis, sobrevive uma ternura incontrolável, um amor genuíno e violento.

Eu direi absurdos de seu comportamento, para aceitar que tomei a atitude adequada.

Ela repetirá crueldades do meu posicionamento para se tranqüilizar.

Terei meus motivos e ela, seus motivos, e nunca aceitaremos que as explicações não dão conta do mistério.

Somos muito menores do que aquilo que vivemos juntos.

A incompreensão será o nosso complexo de inferioridade.

Formamos um enigma.

Não é possível fazer resumo de impressões, o raciocínio se esvai nas primeiras estocadas: por que nos encontramos?

Por que tentamos nos entender?

Por que trocamos sacolas de pertences na despedida se não nos pertencemos mais?

Para nós, não havia diferença entre o raso e o profundo, tudo era mergulho.

Tudo sempre foi mergulho.

Um excesso de dom.

Não confio em final, mas não contesto o começo.

Sou realmente seu par.

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– Horizonte –

Tem horas que eu quero por que quero encontrar um horizonte para olhar.

Mas não é tão simples quanto parece.

O horizonte nem sempre está visível a minha frente.

Mas descobri que por vezes é necessário mover montanhas e clarear o tempo para só então enxergá-lo.

Na angústia de apenas rodear em volta de mim, inúmeras vezes não contemplei a tênue linha que separa o céu da terra.

E é no horizonte que mora a luz no fim do túnel.

É onde o sol nasce e se põe.

E onde os mistérios brincam de adivinhação.

É meio estranho viver sem ter um horizonte para olhar.

É como se eu não tivesse para onde ir.

Mas eu tenho e, eu voltei.

 ” …então me deito e penso que a lua, só consigo alcançar com os olhos, o mar só abraço olhando e mesmo assim, sem tê-los, nunca deixarei de amá-los, mas reconheço: tanta grandeza talvez não caiba em mim… “

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” Em PAZ “

Uma das grandes sensações que alguém pode experimentar nesta vida é a de paz.

Paz consigo mesmo, com o mundo e com as pessoas que fazem parte da sua vida.

A paixão não é um sentimento que traz paz pra ninguém.

Ela te tira do prumo, deixa seu coração acelerado e suas mãos suadas.

Paixão e medo caminham lado a lado.

O medo também te tira do prumo, deixa seu coração acelerado e suas mãos suadas.

Uma pessoa apaixonada quer o outro tanto tanto tanto que tem medo de perder.

Ainda que ela não se dê conta disso, o medo de perder existe quando se está apaixonado.

A paixão não traz paz.

É um sentimento passageiro, perturbador.

Arrasa corações adolescentes, mas é vista com muito cuidado pelos mais experientes no assunto.

A sensação de paz, ao contrário do que muita gente imagina, não é uma sensação morna, neutra ou de que nada acontece.

Ao contrário.

As coisas acontecem, mas elas andam no ritmo certo.

Não tem nenhum Deus-nos-acuda, o mundo não vai acabar amanhã e, se for, não há nada que alguém possa fazer (portanto, nada de afobação!).

Paz é uma sensação de que (como alguém já disse antes) a direção é mais importante que a velocidade – e uma ligeira desconfiança de que a direção está certa.

Paz é quando o mundo não precisa parar pra você descer, pois você pode descer a qualquer momento e tem total controle da situação.

Paz é ter a cabeça vazia diante de uma estrada que não tem fim.

Paz é colocar sua cabeça no travesseiro à noite e dormir com a certeza de que você não enganou ninguém, não mentiu pra conseguir nenhuma vantagem ou usou de alguma forma ilícita pra conquistar alguma coisa ou alguém.

Você tem a nítida sensação do que é paz quando você não busca a felicidade em cada coisa que faz ou em cada lugar que vai.

Paz é quando você está na hora certa e no lugar certo simplesmente porque você acha que aquela hora e aquele lugar são certos pra você estar.

Paz é querer aquela pessoa que também te quer e, se um dia uma das partes não quiser mais, tudo bem.

Você também vai estar em paz pois não precisa de outra pessoa pra viver.

Paz é estar feliz com sua própria companhia assistindo filme sexta-feira à noite.

Paz é uma sensação interna de que sua busca não acabou mas que ela não acaba quando você encontra.

Paz é não ter saudade do passado.

Ou ter, mas viver em harmonia com ele.

É não esperar pelo futuro com se ele existisse porque, na verdade, o futuro acaba no exato momento que começa.

Paz é a sensação de que tudo vai dar certo e, se não der, você terá outra chance.

Paz é acordar na beira do mar e não ter nada pra fazer.

Ou ter.

Paz é uma ave livre abrindo as asas no seu ombro.

Paz é um cachorro te olhando nos olhos.

Paz é uma sensação de dever cumprido.

De uma obra entregue no prazo.

De fiz meu melhor.

Paz é o final de um espetáculo de teatro depois que as cortinas se fecham.

Paz é um par de olhinhos te olhando com admiração e respeito.

Paz é uma sensação para poucos, mas aqueles que a experimentam não trocam por nenhuma outra sensação do mundo que possa se acabar num piscar de olhos.

Se eu pudesse dar uma fórmula mágica da paz em um texto, eu daria.

Mas, por enquanto só posso descrever um pouco do que estou conhecendo.

Que não é quente, não é frio e muito menos morno.

É leve, é novo, é seguro.

Paixão, como eu ia dizendo, tem muito mais a ver com medo do que com amor.

O amor é leve.

É maduro.

É terra firme de se pisar.

A sensação de paz é um sentimento tão nobre quanto o amor, só que mais apurado.

A paz é sublime.

(Por Brena Braz)

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