– Sem Palavras –

– Isso é um paradigma.

– O que é um paradigma?

“Todas as paixões passam com o tempo”.

Esse não é o padrão de comportamento das paixões?

– Então a culpa agora é das paixões?

– Ou do tempo.

– Não foi o tempo que deixou de gostar de mim.

Foi você.

– Eu não deixei de gostar de você. 

Eu gosto de você.

Mas a paixão passou com o tempo.

– O tempo realmente não gosta de mim.

– O tempo não gosta.

Nem desgosta.

Ele só passa.

– Levando as minhas paixões!

– E as minhas.

E as de todo mundo.

A sua paixão por mim também passou.

– E você não está indignada porque a nossa paixão passou?

– Não adianta se indignar com o inevitável.

– Isso é outro paradigma?

– Isso é uma conclusão racional.

– Você era bem mais passional quando era apaixonada.

– Isso é um pleonasmo.

– Danem-se as palavras. 

E os pleonasmos.

E os paradigmas.

E as conclusões racionais.

Eu quero a nossa paixão de volta!

– Eu também quero.

 E o que é que a gente pode fazer?

Inventar a máquina do tempo e voltar praquela noite de São João quando a gente se beijou pela primeira vez num cenário de fogos de artifício?

Descobrir uma composição química que ressuscite as paixões e injetar ela na veia?

Provocar uma amnésia em ambos para que a gente possa esquecer tudo que viveu e então se conhecer uma outra vez?

– Qualquer dessas opções seria inútil.

O tempo continuaria passando e levaria de novo a nossa paixão com ele.

– Todas as paixões passam com o tempo.

É o que eu estou tentando dizer.

– E eu não estou querendo aceitar.

– Isso é burrice.

Se daqui a pouco o dia vai amanhecer, não é melhor a gente querer que ele amanheça para não ficar contrariado daqui a pouco?

– Isso é muito inteligente.

Resolver querer tudo que vai acontecer, mesmo querendo o contrário.

Queremos envelhecer!

Queremos morrer!

Queremos que a água potável da Terra se esgote!

Queremos que as estrelas se apaguem, uma a uma, até o céu ficar vazio!

Queremos que a nossa paixão passe completamente, vá embora, e jamais retorne, para que nossa vida fique bem sem graça!

– Temos duas opções: podemos nos separar e ir arranjar outra paixão por aí, ou continuar juntos sabendo que o incêndio apagou, o terremoto acabou, e isso tem até um lado bom.

Paz.

Família.

Carinho.

Cumplicidade.

– Isso é conformismo.

– Isso é amor.

– Não fala mais nada.

Apaga a luz e deita aqui ao meu lado.

– Isso é uma maneira gentil de encerrar a conversa?

– É só uma tentativa de reencontrar, com as nossas bocas, um argumento que deixe a gente sem palavras.

(Adriana Falcão)

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