Confissões de uma “quase” Balzaquiana.

Preciso confessar:

Eu invejo terrivelmente as pessoas de alma serena.

As lineares, as constantes, as bem tecidas.

Invejo esta felicidade lenta que surge em certos sorrisos, os sorrisos que derivam talvez de experiência, talvez de simplicidade, talvez de sabedoria, seja lá o que for: desconheço.

O que conheço é o intermitente, o que é e será mais, o que ainda vai chegar lá.

Isso é o que conheço desde sempre, por temperamento, por influência genética ou por mera irreflexão.

Eu sei, e também não sei, e que nesta cadência imoderada provoco-me um futuro a ser outro.

Mas há sempre um “mas”, para os imoderados. 

E então, na dinâmica do tempo, “mas”… como uma suspensão, e nada se move.

Desconfio que toda minha luz é um fogo tímido.

Todo o meu som, um acorde sumindo no silêncio.

E toda cena da minha encenação de vida, um gestinho irrelevante.

Talvez a salvação esteja na questão de que o sentimento mais intenso da inconstância que havia já não há.

No entanto, ao morrer levou – em partes – consigo o olhar que brilhava e a maravilha das manhãs eufóricas.

Também levou-me palavras, algumas vontades e as migalhinhas de pequenas atitudes de felicidades.

Acabou, e isso parecia bom, “mas”

Então por isso invejo terrivelmente as pessoas de alma serena.

Meu melhor amigo costuma dizer que somos opostos simétricos.

Ele é do tipo que não se define por advérbios de intensidade.

Porque nada é mais terrível, aos passionais, do que o limbo da falta de emoção.

Odeio o dia interior que nasce igual a cada manhã, sem nada para maravilhar.

Me angustia, mesmo assim eu conto os dias e as noites, para ver ressurgir o olhar que brilha.

Preciso de terremotos, nem que seja um pequeno abalo interior, uma coisa a querer… uma coisinha qualquer… que me salve.

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  1. #1 por LeoNeto em 22 de junho de 2010 - 12:07

    E eu ando de mãos dadas com a inveja de pessoas mais ousadas, menos serenas, menos cordatas, menos coerentes… Coerência, serenidade e linearidade demais, meu bem, só emperra a pessoa…

    In porpouse, nós no sofá da Heby – rs – estamos um luxo só!

  2. #2 por KSS em 22 de junho de 2010 - 12:16

    Inspirador talvez, e para mim tornou-se viagem ao interior do “eu” em busca de um meio para conseguir definir o fim de tudo que planejo ou aquilo que o acaso por fato trouxer

  3. #3 por jorai em 22 de junho de 2010 - 12:38

    eu tb quero terremotos… terremotos e vulcões.

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