– Saudades de PAPAI –

Luiz morreu há oito anos.

Eu sempre choro o dia 22 de Outubro, o mês do meu aniversário.

Estaria mentindo se dissesse que a dor é a mesma de oito anos atrás.

Não é!

O tempo se encarrega de colocar tudo em perspectiva: a ausência, a memória, a própria extensão da dor.

Mas isso não impede que, de vez em quando, esta imensa falta se torne palpável, concreta, irremovível.

Então eu chamo meus guindastes imaginários para retirar dali aquela pedra imensa.

Convoco meus pedreiros imaginários para recolocar lá o ladrilho que não existe mais.

Nada disso funciona, mas insisto.

“A ausência definitiva nunca é preenchida.”

A quem ficou, resta conviver com esta verdade do melhor jeito que puder.

 No limite, isto é que é viver.

Não há beleza na falta.

Não há poesia na morte.

Alguns se voltam para uma crença, para algum caminho metafísico.

Para mim, a única força possível vem da lembrança do que se disse, do que se fez, do que se viveu.

 E de papai, tenho a lembrança dos abraços apertados, das viagens, das tardes no Tribunal de Justiça após a escola.

Com ele descobri paixões, entre elas: os livros, os discos, as utopias.

Me lembro também das implicâncias e das cumplicidades que não caberiam em nenhuma máquina de calcular.

E de nossas longas conversas sobre as estrelas, a lua e o universo tão maior do que minha imaginação.

Foi ele quem me ensinou a gostar (MUITO) de comer, e de inventar receitas com mostardas.

Mas eu me lembro, acima de tudo, do olhar.

É o seu olhar que nunca sai de minha mente.

Papai tinha um olhar cheio de significados.

Era dono de um olhar para um mundo interior sem telhados ou paredes.

Hoje não é 22 de Outubro, mas estou emotiva e sentido muita falta dele.

E nestes longos anos, não tenho qualquer ilusão de que um dia tudo isso se transforme numa memória doce.

Esta memória nunca será doce.

Essa saudade será sempre funda, silenciosa, estranha.

É como uma dor de carpideira.

Algumas vezes a tristeza invade meus dias e minhas noites.

As vezes eu cedo, mas a vida não é uma curva ascendente.

Esse é um caminho íngreme, pedregoso e que exige força de alpinista.

Dias atrás sonhei com um tigre.

Isso deve estar relacionado como meus instintos, minha animalidade e a lealdade que costurou nossas duas vidas enquanto foi possível.

Alguns nem chegam perto disso, mesmo vivendo cem anos lado a lado.

Mas entre mim e papai é uma questão de memória funda, e tem um residual de gratidão.

E se a gente permite, a vida continua.

Ainda que a gente não compreenda os porquês e os comos disso tudo.

Um ano após outro, o tempo vai curando e recolocando tudo no seu “adequado” lugar.

No entanto, o que realmente dói é saber que este lugar não pode ser ocupado.

Nem por uma crença, nem por uma lembrança, nem pelo sonhar com um tigre.

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  1. #1 por LeoNeto em 24 de junho de 2010 - 18:59

    Lindo o Texto… Sr Luizão presente sempre em nossos corações!

  2. #2 por Marri Brito em 24 de junho de 2010 - 19:04

    Sem palavras.
    O tio Luiz era o cara. Saudade imensa dele!!!
    Beijo Paulinha.

  3. #3 por Jujuba em 24 de junho de 2010 - 19:07

    Irmã querida, queria que minha lembrança da infância também fosse tão boa quanto a sua ao lado do seu pai! Você teve sorte de ter um pai que se preocupasse contigo e te amasse tanto. Não é nada fácil esquecer da morte, mas os bons sentimentos cultivados durante os anos de convivência tem de ser mais fortes e mais presentes sempre! Triste se não houvesse isso, né?!
    Te amo!

  4. #4 por Jujuba em 24 de junho de 2010 - 19:09

    Imagino a grande pessoa que foi o Tio Luiz!

  5. #5 por Fernando Foratto em 24 de junho de 2010 - 19:18

    Querida amiga

    Fiquei profundamente tocado com seu texto, estou até agora tentando me recuperar da emoção contida em meus olhos;
    sabe sempre digo que conhecemos as pessoas certas em nossas vidas, e mesmo sem nunca ter parado e tocado neste assunto com você tenho uma grande coincidência neste sentido com sua historia. A saudade de meu pai tambem jamais será preenchida

    PS: a diferença é o que o dia da minha saudade é 17 de outubro

    Lembrei-me de uma frase linda que li no Post de um amigo:

    “Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores,
    mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! ” Vinícius de Moraes”

    Acrescentaria que a perda de alguém tão importante é o próprio abismo da loucura
    acho que o amor que ele sentia a mim que me segurou.

    Super beijo gatinha e fique bem.

  6. #6 por Camila Pessoa em 24 de junho de 2010 - 19:18

    Eu não gosto da falta que a falta faz!

  7. #7 por Aglaene em 24 de junho de 2010 - 19:29

    Querida nova amiga, as pessoas entram na vida da gente por um motivo ou outro.Acho que nossa sintonia é grande. Por conta desse amor por um pai que se foi. Hoje me sinto fraca perto do que achei que era. Só com ele eu me sentia um muro de pedra. Mas tenho mami que me fortalece e me faz pensar que minha missão ainda é grande, cuido dela como se fosse uma criança, para suprir essa dor da ida de dum heroi.

  8. #8 por Renata Marques em 25 de junho de 2010 - 1:03

    Lindo texto! snif…
    Imagine Seu Luiz, lá do céu, olhando pra cá e vendo que filha MARAVILHOSA que ele colocou no mundo? O cara deve rolar de felicidade.
    Ana, tenha certeza que ele está sempre com você. Ou você acha que Deus perderia tempo em formar relações tão profundas para deixá-las morrer embaixo da Terra?
    Beijão, gatinha!

  9. #9 por Alice em 25 de junho de 2010 - 3:42

    Tem gente que tem fé.
    Ou há quem não tem nenhuma e acredita na força da alienação.
    Tem gente que tem gente.

    Tem gente que tem adoração por um impalpável.
    Tem gente que não faz relação e vive uma semi vida morna.
    Tem gente que de peito aberto faz a vida e de trocas forma humanidade.

    A sorte está em juntar referência e amor.

    Que bom que seu pai foi isso pra você!

    E as memórias são as cerejas da vida! Mas devem ser usadas para o bem e saber a hora de comê-las…

  10. #10 por mishimote em 29 de junho de 2010 - 11:42

    Penso que todas as as pessoas têm duas almas, dois seres dentro de si, nos quais, o divino e o diabólico, o sangue da mãe e do pai, a capacidade de felicidade e de sofrimento… e, tudo em você, está amarrado de modo tão apertado e indissolúvel como a alegria e a tristeza. Acho que nem todos são fortes o bastante para suportar não ter ambiente de vez enquando … propriamente… mas você é! sei das suas fraquezas e quase desistências, mas sei que você vai… e bem, eu diria…
    Penso que a afetividade ocupa um espaço muito maior que a média no seu coração e isso te dá a tendência de sondar e expor o interior como poucos…
    Procurar consolar a “ausência definitiva”(como você colocou) para mim, é a única maneira de reduzir esse acontecimento ao reconhecível, ao palpável… e é, de fato, a única maneira de lidar com isso…
    Ler você me cai infinitamente melhor do que Caio Fernando Abreu que você insiste em postar.

  11. #11 por Alessandro em 29 de junho de 2010 - 14:31

    Uau… uau… uau…

    Tudo o que escreveu, é tão lindo, tão profundo e intenso… confesso que li, enquanto ouvia Yann Tiersen… o que deu um tom de emoção e sentimentos ainda maior!!!

    Adoro ler essas demonstrações de afeto… saudade… amor… coisas que vivemos, que foram fantásticas… mas que tiveram um prazo!!! Prazo este, imposto pelo destino… destino este, nem sempre, bom para nos!!!

    Perder alguém querido e tão próximo é sempre ruim… por mais que o tempo cure e feche um pouco a ferida… ela nunca é totalmente fechada… e vez por outra, nos pegamos saudosos, carentes, com a emoção a flor da pele… pelo simples fato de lembrar… ou mesmo por algo que esta acontecendo e adoraríamos compartilhar com este alguém.

    É… a vida tem dessas coisas… meu avô se foi a mais de 15 anos e até hoje sinto a falta dele… quando passava minhas férias na fazenda e ele, com toda a paciência ia me ensinar a montar a cavalo… a tocar a boiada… a comer frutas silvestres… coisas simples e perfeitas!!!

    Ele se foi… eu continuo aqui… vivendo da melhor forma possível… mas sempre que vou a fazenda, é imediata a saudade bater no peito!!!

    O que vive e continuará vivendo, para todo o sempre… para vc e para mim… será a lembrança… a lembrança de tudo o que vivemos, de tudo o que foi bom… das rusgas, das risadas, dos abraços, dos afagos… e do olhar… algo tão enigmático para alguns… para outros “a porta da alma”… aquele tipo de olhar que mesmo sem estar acompanhado de nenhuma palavra, te diz tudo…

    Nestas horas… feche os olhos… relembre todos os momentos que passaram juntos… e capte aquele olhar que só o seu velho, tinha… as forças voltarão… vc se sentirá protegida e com forças para seguir!!!

    Seguir sendo esta pessoa linda e iluminada… alguém que dá orgulho a ele… por tudo!!!

    Beijão.

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