Friends

Todo mundo diz que é difícil definir o amor.

Até sinto que seja.

Mas para mim o exercício mais árduo ainda é definir a amizade.

Na adolescência fui do tipo que criava categorias enquadrando as pessoas aqui ou ali.

Lembro ainda de algumas amigas que faziam rankings, pontuavam com estrelinhas… até elaboravam listas.

Eu cresci e felizmente hoje, não sigo esse ritmo.

Penso que pouco me preocupa a questão: “distinguir, a cada momento da vida, o nível de merecimento de cada um a um gesto meu.”

Porque sei da minha lealdade a cada um a quem classifico como amigo.

(Aliás, LELADADE é sem dúvida uma das palavras mais bonitas da Língua Portuguesa)

E no meu caso, estes gestos muito acontecem, espontaneamente, guiados por um parâmetro subjetivo que não se explica.

 Ah, reconheço que existe uma diferença substancial entre aquilo que acrescenta e aquilo que faz falta.

Eu tenho amigos com quem raramente falo, por exemplo, aqueles da minha época de Rondônia.

Esses são pessoas especiais que já foram essenciais na minha vida, e mantenho a ilusão de que posso contar com eles quando precisar.

É como se os amigos fossem uma espécie de reserva técnica para as necessidades do espírito.

E ainda habitassem um lugar preso no tempo, ao qual posso recorrer quando for necessário acionar em mim uma pessoa que já fui.

Todavia, assim como eu, estes amigos que julgo suspensos no tempo, vivem suas vidas e se transformam em outras pessoas à medida que os anos passam.

Já os prazeres, descobertas, sofrimentos, e experiências que acumulamos (enquanto “longes” um do outro), provocam um estranhamento que só encontra algum sossego quando retorna as memórias do que fomos um dia,  e que talvez ainda sejamos, ou quiséssemos ser um para o outro.

Eu – nesse instante da minha vida – não reconheço alguns caminhos desses amigos.

Daí eu penso: “Fulano (a) não era assim”.

E o (a) fulano (a) pensa: “A Ana não era assim”.

Creio que para estes amigos (assim como para mim), resta a saudade episódica.

Resta a alegria genuína de rever e o passo adiante que grita, categórico: nos gostamos, nos lembramos, nos retomamos, mas não nos fazemos tanta falta.

Penso que a vida seria melhor se nos víssemos mais, mas talvez isso apenas revelasse que já não somos quem julgamos ser.

E a esse modo (com a maioria dos amigos) estabeleço uma relação estável, imaginada, ambientada em um passado que pode nunca reexistir.

Mas, e os meus vínculos de amizades hoje?

Esses são tão fortes quanto foram aqueles outros um dia?

Sinceramente? Eu não sei.

Talvez estejam apenas pontualmente aliados, eventualmente solidários, em um momento ou outro compartilhando projetos, sentimentos, valores e percepções sobre a vida.

Será pelo olhar afetuoso do Leo Neto (que se derrama sobre mim de modo totalmente imprevisto), que eu me sinto em contato verdadeiro com a amizade?

Eu sei que ao lado dele tenho tido momentos que me parecem tão valiosos quanto as lembranças dos velhos melhores amigos.

Helô, Renata , Daniel e Julia são minha espécie de promessa de que no futuro, quem sabe, eu possa amarrar com esses alguns nós importantes.

 Por hora, todos nos respeitamos, ambos nos admiramos, e muito nos desconhecemos.

Independente de onde (eu ou eles) possamos estar daqui 10 anos, com esses gostaria de estabelecer uma relação não contida, não fragmentada, mas temerosa e projetada em um futuro que pode nunca ocorrer.

Tudo que vem desses me acrescenta e é bom.

 E como (não só aparentemente) eu me baste, só me revelo em minha complexidade diante de um outro.

 E eles são estes outros a quem habitualmente dedico minha bárbara intimidade.

 Meus amigos – independente do momento – mas vocês que me aceitam nos piores dias pacientemente, e cuidam de mim como quem cuida de um filhote ferido.

 Você, com a mesma disposição, que ouve minhas belezas tolas da vida e as profundezas de meu espírito atormentado.

 Você que me permite tagarelar em um dia e silenciar em outro.

 Você que eu sempre peço que ouça aquela música, leia aquele livro ou prove aquele prato,  não por mim, mas por você, ou por você mas comigo.

 Você que têm comigo um olhar cúmplice.

E percebe que nossa cumplicidade se estabelece não apenas no olhar, em um jeito de respirar ou caminhar.

 Você que não importa de chegar lá em casa e não ter nada apetitoso na cozinha, mas se preocupa em vir.

 Você que algumas vezes também é oculto e obscuro, pois mesmo isso que pode ser o pior, se conecta com a estranheza que eu sinto em mim mesma.

 Uma palavra: O-B-R-I-G-A-D-A!

Minha amizade não é dotada de lógica.

Sei que ninguém nasce melhor amigo (ao contrário dos adolescentes, que se amam e se abandonam com a mesma intensidade sincera), a vivência comprova que amigo é aquele que resiste às diferenças que pontuam as personalidades.

Então se nos atraímos pelo que nos é oposto, a verdade é que nos construímos verdadeiramente com quem nos parece igual e, portanto, complementar.

 É ao lado de cada um de vocês que eu não sento culpa por ser insana, tola e despudorada.

 Nós – juntos – creio que temos uma essência andrógina.

Sei que tudo de que precisamos se encontra em nós mesmos.

Não vamos pensar pensar no amanhã por que com vocês como melhores amigos, aciono em mim aquilo que falta expressar.

 O que parece faltar, e que então não falta mais.

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  1. #1 por KSS em 1 de julho de 2010 - 18:56

    Li seu artigo e fiquei por momentos olhando meu relicário.
    Hoje, tenho menos quase tudo que tinha aos dezoito: menos certezas, menos anos de vida e etc.
    Afinal, sou pessoa diferente, me sinto mais completa e segura.
    Não caminhei o tanto quanto desejei, mas na minha lista de prioridades contem em PRIMEIRO LUGAR “AMIGOS”.
    Pretendo ama-los, critica-los e até visitá-los.
    Ah. se no Brasil ou não só depende das decisões deles.

  2. #2 por Daniel Sanchez em 1 de julho de 2010 - 19:27

    “Ai” de você, se não me citasse no texto! AI!

    Promessa é dívida com Santo.

    Eu sou seu irmão, por escolha.

    Te Amo.

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