Arquivo de novembro \25\UTC 2010

Invisível

 

Olha que coisa bem linda.

In-vi-sí-vel.

É aquilo que seus olhos não conseguem alcançar, o que você não consegue entender direito porque não vê.

Invisível.

Acho uma sonora – e reveladora – palavra.

Parei para pensar naquilo que não posso ver.
 
São tantas coisas.
 
Bonitas, feias, esquisitas, interessantes.
 
Sentimento é invisível.
 
Você apenas sente, mas não toca, não pega, não sente o calor, o cheiro, não tem noção de cor, forma, tamanho, jeito.
 
Apenas sente, apenas deixa sentir – se coragem e disposição tiver.
 
O que a gente não pode ver excita e assusta.
E ambas as reações acontecem exatamente pelo mesmo motivo: o medo do desconhecido.
O estranho, não sabido.
Invisível.
O coração, que bate tanto, ninguém vê.
O suspiro, o sonho, a felicidade, o gozo, a tristeza.
Tudo é invisível, tudo acontece dentro de você.
Tudo você pode esconder quando achar melhor ou bem entender.
Os olhos são visíveis – e muito dizem sobre quem somos.
Pena que também possuem artimanhas e labirintos.
Quantas vezes não fomos pegos por enrascadas de um olhar?
Em quantos olhos aparentemente sinceros você já não acreditou?
Por quantos olhares já não se deixou levar?
A gente se engana, sim, com o olho no olho.
Porque tem olho no olho que é planejado, jogada ensaiada de quem sabe jogar.
E eu confesso: não sou do jogo.
Sou péssima jogadora, por isso volta e meia perco.
A alma é invisível.
O caráter é invisível.
Ninguém enxerga, mas uma hora ou outra eles se manifestam, dão as caras, são notícia.
Ninguém sustenta uma mentira muito tempo.
Ninguém consegue manter duas caras a vida inteira.
Uma hora a corda balança, você precisa se equilibrar e mostrar quem é.
E não é nada fácil ser quem a gente é, abraçar defeitos, loucuras, fantasias alucinadas.
Não é fácil se olhar no espelho e dar de cara com o que está visível.
Máquinas fotográficas registram momentos, manifestações de sentimentos, cenas, datas importantes.
Fotos são pedaços de lembranças (porque uma parte fica na foto, a outra dentro da sua cabeça e coração).
Tiramos fotos de tantas coisas.
Já pensou se a gente conseguisse fotografar a alma das pessoas?
Ver o que tem dentro, apreciar ou se horrorizar com o que cada um leva consigo.
Ia ser bonito.
Uma experiência única.
E visível.
(Clarissa Corrêa)

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Meu primeiro mês, ao lado dele!

 

Hoje, no primeiro mês casada, aprendi que o amor é feito de faltas e presenças.

 E que nenhuma das duas pode faltar pois amor é isso: L-I-B-E-R-D-A-D-E-!

 É como ter, todos os dias, muitas outras opções e ainda assim fazer a mesma livre escolha.

 Meu casamento é delicado e harmônico.

 Ao contrário do entusiasmo que envolveu toda minha mudança interna, vivo sensações intensas e discretas.

 Anderson tornou-se um espécie de marido herói.

 Sua doçura e calma é o que mais me fascinam.

 Quando estamos apenas os dois, sua voz é quase imperceptível.

 E apesar do constante bom humor e da alma inquieta, nem sempre ele é uma gargalhada.

 Meu marido é aquele sorriso de dentro.

 Ele é minha sensação gostosa de estar no lugar certo, na hora adequada.

 E a maior beleza do nosso amor, é o adorno do equilíbrio dentro do derramamento.

 Uma espécie de adestramento dos fantasmas internos.

 Viver esse matrimônio têm sido uma possibilidade de aprimorar todos meus pensamentos.

 E algumas vezes é quase como não pensar.

 Simplesmente, sinto uma ligação profunda com tudo, um denso bem-estar.

Assim, Anderson e eu vivemos uma secreta intimidade com o mundo.

 E uma espécie de cumplicidade com o tempo.

 É como se ambos observássemos descompromissados.

Assim o casamento torna-se uma descontração.

 E o mais incrível?

 Meu mundo inteiro cabe dentro do seu abraço.

Em parte pela firmeza na carícia, noutra pela maturidade e confiança que preenche a existência do relacionamento.

Meu casamento me permite um contato profundo com a experiência da felicidade.

 E o tempo do dia não é mais composto por esperas, ele é vivido.

 E já não se ama, o amor vigora em nós.

 Nossa harmonia tem fios muito delicados e sua trama faz a ligação mais suave entre todas as urgências que já senti.

 E eu tenho todas as coisas boas de um casamento, sem agora precisar tomar posse delas.

 Eu amo o amor, não mais o delírio de estar apaixonada.

 A sensação desse casamento é como se ambos  fôssemos inundados pelo mar onde antes só havia um precipício.

 E para nós não existe futuro.

 Existe o amor e o presente que é só nosso.

 E isso nós nos presenteamos, nos permitimos.

 E hoje não há espaço para nenhum outro sentimento.

 Nem há parecido nem próximo.

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Para minha amiga Sheila…

 

Porque eu tenho pesadelos que parecem tão reais até quando você me abraça.

E eu acordo triste.

E brigo de verdade, e passo o dia grave e dolorida como quando a gente leva um tombo no piso liso… que é só o passado.

É como se eu sentisse um ciúme horroroso do meu livro predileto comprado em sebo, a dedicatória apaixonada que não é a minha, os resquícios do manuseio de outras mãos.

Alguém corrompeu o trecho que eu mais gostava quando grifou a caneta algo que não pude apagar com borracha e que era tão secretamente meu.

Desenhou corações onde só havia minha dor e eu discordei da interpretação alheia.

E achei aquilo tudo de uma crueldade atroz.

Mas permaneci com o livro no colo, cheia de um afeto confuso por ele: afeto pelo que era, angústia por já ter sido de outro alguém, e aquela sensação (imbecil) de falta de exclusividade.

Eu que sempre achei que tudo é e está para o mundo.

Perdoa o meu senso de autoimportância, já que não consigo perdoar o meu egoísmo.

Eu sei que em alguns presentes, no embrulho, laços do passado são aproveitados.

Eu só queria que eles não fossem tão vermelhos: desses que doem nos olhos e no coração.

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Minha Vida, Meu futuro – O DIA DE HOJE!

Neste exato segundo em que o planeta terra passeia pelo sistema solar, há uma infinidade de vidas que se iniciam e outra infinidade que chega ao fim.

É natural.

Talvez chegue um dia em que morrer será a exceção e o mundo atingirá sua lotação.

Para isso existe a ciência, a medicina: evitar que a vida chegue ao fim.

Viver alcança seu valor máximo.

Tanta gente aprendendo a sorrir com conquistas, mas a maioria ensaiando o futuro.

Não é o que eu quero.

Quero mesmo é o presente.

Cansei de me preparar para um dia que pode não chegar.

Existe vida no agora?

Se houver, eu vou encontrar.

Eu tenho essa urgência de viver, essa pressa de qualquer coisa que ultrapasse a inércia.

É isso que me faz jogar dados ao acaso e me atirar de carros em movimento, é por isso que ando longe de viadutos.

Meu suicídio diário não é uma forma de morrer.

É uma tentativa desesperada de encontrar essa vida, testar minha capacidade de quase ir e voltar, descobrir se eu mereço estar aqui e se existe mesmo um deus.

Afinal, ele concorda ou não com a minha maneira de encarar as coisas?

Por que não me castiga por ser tão estupidamente desapegada?

É minha necessidade de viver que me mata.

Tenho a impressão de ter atingido o auge da minha maturidade, mas não tenho espaço físico ou moral pra existir nessa condição.

Estou pronta pra largar tudo pra trás todos os dias, mas algo finca meus pés no chão sem aviso prévio.

É preciso ser coerente pra ser aceito, mas como não me contradizer tentando achar um equilíbrio?

Como não ser um pouco louca nesse mundo tão absurdo?

Não adianta me oferecer o discurso de faculdade-emprego-família como verdade absoluta.

A gente não aprende a viver sentado numa carteira de colégio.

Não é a fórmula de Pitágoras ou a definição de pronome oblíquo que vai fazer com que eu seja mais ou menos inteligente.

Saber organizar informações burocráticas em série e ser programado roboticamente não faz de ninguém um ser humano repleto.

Isso tudo só rende uma possível colocação relevante numa prova de vestibular, um êxtase momentâneo.

A vida se aprende nas perdas.

É perdendo a liberdade que a gente descobre que não se encaixa, é perdendo alguém que a gente descobre que não vale a pena lutar por futilidades, é perdendo o apoio que a gente descobre que o resto do mundo não para só porque nosso mundo parou.

A gente vai aprendendo a viver assim, na marra, no grito, no sufoco, no impulso.

Eu quis mudar o mundo, quis ser brilhante, quis ser reconhecida.

Hoje eu quero bem pouco e prefiro me concentrar no agora do que planejar um futuro incerto.

Eu me libertei da culpa e dei de cara com algo novo: não me encaixo, e aceito.

Não é justo perder as asas no momento em que se descobre tê-las.

É preciso poder voar, é preciso ter uma visão estratégica das janelas.

Ver o sol e não poder tê-lo é absurdo.

Então eu deixo algumas coisas passarem incompletas porque tenho consciência de que certas palavras ainda não têm tradução.

Por mais que eu grite, vai ter quem não entenda, não aceite.

O que eu não aceito é ter nascido num mundo tão grande e conhecer só uma pequena parte.

Vou voar.

Quem conseguir compreender, que me acompanhe.

(Verônica H.)

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O que eu NÃO aceito

 

Quando alguém é meu amigo eu faço o impossível para ver a pessoa bem.

Se eu gosto tomo as dores, embarco em indiadas, dou um jeito de fazer com que tudo fique numa boa, nem que seja ouvindo e dando o ombro.

Mas, por favor, nunca minta para mim.

Quem mente perde completamente a minha confiança.

Procuro ser uma pessoa justa.

E, confesso, meu lado bonzinho fica encostado no lado babaca.

Em outras palavras: às vezes sou burra ao invés de boa.

Se tem uma coisa que detesto é me sentir enrolada.

Me preocupo a fundo com os outros, por isso não curto pequenas mentiras e desonestidade.

Pena que tem gente que não enxerga isso.

Muitos se acham donos da verdade, dizem que fazem e acontecem, aparentam ser uma coisa que não são.

Tem gente que adora inventar a vida, contar vantagem e semi-lorotas-brabas, florear a realidade e brincar de autor de novela.

Tem coisa que é surreal.

Tem coisa que é irreal.

Tem coisa que foge completamente dos padrões normais.

Agora você me pergunta: existe essa coisa de normalidade?

Claro que não.

Minha vida muitas vezes é uma novela mexicana, em outras tantas vira caso de política.

Mas eu não minto, não enrolo, não me faço de louca e não tomo ácido.

Não sei fingir.

Abraço minhas vontades, mesmo que a minha cara fique roxa de tanto apanhar.

Cumpro minhas promessas, mesmo que me doa.

Não brinco com os outros para me distrair, tampouco dou uma de boa samaritana para depois me esconder atrás da moita.

Isso não.

Por isso, digo e repito: gosto de gente de verdade.

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POEMA – Cora Coralina

“Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu…
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu…
E eu, quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo…
eu te amo, perdoa-me, eu te amo… “

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Clandestinidade

Eu sou daquelas que fogem de uma vida condenada à mediocridade.

Minha nave é feita de sonhos.

E eles vivem dispostos a correr os riscos da vida e as rotas de medo.

É assim que chego a margem do desejo.

Aprendi desde cedo que a clandestinidade é mãe de muitas emoções e tentações.

Uma nova e feliz vida é o objetivo de quem lhe recorre.

Porém, não poucas vezes, as desilusões são superiores às boas surpresas.

Mas com o desbravar dos novos caminhos, chego frequentemente a ruas semelhantes dos meus sonhos.

Sonho com tudo a que tenho direito.

E torto.

Clandestinamente muitas vezes.

Ainda bem que à noite a leva de fofoqueiros – que me ronda -, dorme.

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