Foda-se a Natureza – Tati Bernardi

 

Ontem foi aniversário de uma tia e uma daquelas poucas datas que juntam a família inteira.

Todo mundo vendo quem engordou, quem emagreceu, quem trocou de carro e quem teve a cara de pau de trazer doce comprado ao invés de fazer.

Eu pra variar fui solteira e tive que, pela milésima vez, explicar a todos que não, não estou interessada em conhecer o Tonhão, primo do amigo do filho do outro casamento do meu tio, ou qualquer coisa do tipo.

E sim, tô guardando dinheiro, mas é pra comprar calcinhas Verve e maquiagens MAC e não pra congelar os óvulos.

Costumo não suportar muito esses tipos de festa (ou qualquer tipo) até que lembro que sou escritora e fico feliz.

Sempre me pego pensando em 897 temas para textos maldosos.

Acabo não escrevendo nada, ou quase nada, de medo de magoar mamy.

Se bem que dessa vez ela bem que merecia: me fez vestir uma roupa dourada dos pés à cabeça com sapato dourado, bolsa dourada, pulseiras e brincos e corrente dourados, um aplique dourado no decote (e eu usei tudo isso porque adoro ser o personagem principal do texto maldoso que vou escrever depois).

Mas nada disso é o que tô querendo contar.

Foi só pra armar o cenário.

Tô querendo aqui é falar de Ana Beatriz, a namorada meiga e graciosa de meu primo.

Aninha chegou adiantada, quieta e com cachinhos presos por grampos.

Só os soltaria na hora da festa.

Meu primo foi antes para ajudar na organização da festa e ela, boa companheira, ofereceu ajuda nas tarefas mais femininas como separar docinhos ou opinar em cores de toalhas.

Sem se dar intimamente com as outras mulheres da família, até porque com tanta candura e doçura fica difícil ser muito íntima das
minhas tias e primas passionais e que só sabem se expressar em CAPS LOCK.

Aninha seguia sorrindo e não reclamando.

Meu primo, suado, ia colocar a roupa da festa direto no corpo, foi quando Aninha, temendo mais essa verdade do que a Deus, cochichou em seu ouvido, num ato de ousadia “você não está muito cheiroso”.

E ele tomou banho, mas antes deixou claro “é porque meu pai pediu a todos os filhos pra ficar limpo”.

Com a festa já começada, Aninha se sentou à mesa e, diferente de todos (e aqui me incluo) foi a única que não atacava tal qual um cão
sarnento as bandejinhas de salgados que já chegavam pela metade até nós.

Aninha seguia dando exemplos de como deve se comportar uma moça que quer casar e, ainda que meu primo tenha apenas 20 anos, certamente ele a considerava assim para um futuro distante.

Ia tudo muito bem até que uma garota muito diferente de Aninha chegou na festa.

Loira, alta, gostosa e safada, a loira encarnou no meu primo que, mesmo fazendo de tudo para não demonstrar seu ânimo, não dispensou a oferta de olhares devolvendo alguns.

Aninha, como toda moça que ama muito, sentiu no ar a podridão.

Meu primo, como todo homem, fez Aninha pensar que estava ficando louca e inventando tudo aquilo.

Aninha, que estava há mais de seis horas apenas tentando ser perfeita, desabou mas evitou chorar na frente de todo mundo e, de cabeça baixa e mãozinhas fechadas de ódio, foi ao banheiro mais próximo e se entregou a um rio sem fim de lágrimas.

A família inteira, de tio machista a tia metida a modernete, esbravejou contra Aninha: onde já seu viu armar essa palhaçada!

Onde já se viu estragar a festa por causa de uma besteira!

Homem olha mesmo, homem não presta, uma mulher precisa ser superior a tudo isso!

Uma mulher precisa ser equilibrada e mulher só casa se e bláblábláblá.

Eu apenas me levantei, peguei um brigadeiro de colher, e fui ao encontro de Aninha no banheiro.

A abracei e chorei junto com ela.

Mais de onze anos nos separavam mas naquele momento, éramos apenas duas mulheres que sofriam de amor.

Ela pelo meu primo e eu por tantos outros que ficaram pra trás.

Ela ainda não tinha aprendido a virar uma escrota maluca e largar o cara falando sozinho na festa, ela ainda tinha a bondade de ir chorar no banheiro e esperar que a vida pudesse voltar a ficar bonita depois da descarga cheia de papel higiênico com ranho.

Eu, infelizmente, já tava mais pra loira safada do que pra Aninha.

Come o brigadeiro, Aninha.

E eu torço, do fundo do meu coração, pra que você consiga virar essa mulher que não enlouquece, que é superior, que entende a natureza, que aceita que os homens flertam mesmo, procuram mesmo, não conseguem mesmo, mas que, aos poucos, talvez, você
consiga acalmá-lo, casar, ter filhos e que, talvez, sei lá, você possa aceitar essa natureza nojenta, o mundo como ele é.

Você vai ser mais feliz do que eu, querida, até porque, com tanta doçura e meiguice e feminilidade, o mundo te aceita melhor.

Você pode.

Não chore.

Você pode.

Eu nunca consegui, nunca, eu quero que a natureza se foda.

Eu peguei meu casado dourado e fui embora.

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