Arquivo de março \23\UTC 2011

Literatura x Pintura

As palavras de Gabriel García Márquez me encantam desde sempre.

E isso não apenas pelo que “significam”.

Mas também por seus tons, suas vaguezas e lacunas.

No caso de Fernando Botero, o mesmo por suas cores, disposições e espaços a ocupar.

Na minha ida a Bogotá – no ínicio do mês de Março – fui conhecer o Centro Cultural Gabriel García Márquez e o Museo Botero.

A exposição de ambas as obras me tomaram por completo.

Na verdade não gostei de tudo igualmente, e não seria necessário.

A força de ambos está ali, em suas diferentes fases e seus diferentes materiais.

Nos dois “espaços” há uma concretude única.

E de algum modo seus autores revelam sempre: a dificuldade e o prazer, de cada obra.

Os dois – mestres – exibem em seu País, para mim, um trabalho “industrioso”.

Este trabalho que é o bastidor da arte, normalmente invisível.

E que nestas obras, pude ver nitidamente como formas translúcidas em alto relevo.

Imagino que ser um artista exige trabalho e investimento, e  jamais tem um encaixe perfeito.

Para o autor, o seu “produto” inevitavelmente deixa uma lacuna.

Nunca é suficiente conhecer seus significados.

É ainda preciso dominar os modos de disposição no tempo e no espaço.

É como DIZER… dizer é mais do que falar.

Dizer é um ato estético que nos faz sujeito.

Dizemos com palavras, mas também com gestos, hesitações, desmembramentos e rupturas.

Tanto em Gabriel como em Botero, há um componente político de grandiosa força em cada obra.

E é impossível não ser tocada por eles.

A Colômbia retrata (por eles) uma dor pujante, animal, visceral.

Inconformidade e crítica, são os conceitos mais autêntico dos dois artistas.

Mas cada exposição vai além da minha subjetividade.

Suas obras letradas me colocaram em posição de alerta sobre o quão intensos podem ser nossos sentimentos indizíveis.

E talvez o que tenha mais me perturbado, e por isso fascinado imensamente, seja o não-dito que está exposto ali.

Exatamente isso: o que faltou “dizer”.

 

P.S: Na foto, eu e Anderson (meu marido), na entrada do Museo Botero.

http://www.banrepcultural.org/museos-y-colecciones/museo-botero

 

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