Arquivo de junho \09\UTC 2011

“Eduardo e Mônica” – Por Rosana Caiado Ferreira

Em contrapartida ao filme publicitário (Eduardo e Monica – O Filme),  lançado pela VIVO, esse texto é bem bacana.

Vejam o vídeo aqui: http://www.youtube.com/watch?v=gJkThB_pxpw

“Eduardo e Mônica” – Por Rosana Caiado Ferreira

Mônica já tinha ameaçado duas vezes, mas Eduardo não tinha levado a sério.

Na terceira, falou manso, às oito da manhã, e Eduardo percebeu que era pra valer.

Saiu de casa antes do almoço, com a roupa do corpo – calça jeans e camiseta de malha.

Deixou o utilitário, os gêmeos, a segunda das três parcelas da geladeira que cospe gelo e uma dúzia de fotos da última viagem rasgadas ao meio sobre os lençóis de fios de seda, enquanto Mônica penteava o cabelo diante do reflexo que o espelho do banheiro demoraria a esquecer – Mônica escovando os dentes de Eduardo, Eduardo beijando Mônica com pasta, Mônica dando gargalhadas de olhar para o teto, as crianças batendo na porta.

Embora Mônica tivesse tomado as rédeas do fim, o desejo da separação era compartilhado.

Mas Eduardo não podia imaginar que nem sua mãe, nem seu melhor amigo, nem sua mulher (ex), não fosse segurá-lo pelo braço e dizer “Não pode! Já pro castigo!”

Uma espiral no peito de Mônica doeu como se alguém tivesse aberto o ralo do amor.

Caiu um temporal que lavou os muros da casa que nunca mais será a mesma, ainda que as janelas, as panelas e os tapetes se mantenham iguais – perderam o sentido.

Sofrer uma separação é viver todas outra vez.

Mônica passou um barbante pelas pilhas de fotos separadas por temas (México, Fernando de Noronha, Jeri, aniversários, outras) e colocou dentro de uma caixa, junto com os cartões de aniversário e a aliança de ouro branco – Eduardo tirou a dele assim que soube que Mônica estava sem a dela.

Subiu a escada de alumínio e empurrou a caixa na parte de cima do armário, no fundo – esconderijo preferido do passado.

Demorou dois degraus para entender que as lembranças independem de provas e, como os gêmeos estavam na natação, se permitiu algumas lágrimas sentada ao pé da escada de alumínio, pela certeza de já ter vivido o grande amor de sua vida.

A partir de então seriam apenas histórias circunstanciais, sem a entrega a que havia se acostumado.

Eduardo explicava para Mônica coisas sobre o amor, a saudade, a família e o final feliz.

“Então, vamos namorar?”

E Mônica riu e quis saber se ele estava pedindo anestesia.

“Por favor”.

Ela preferiu experimentar a dor de uma só vez, como se fosse esse o jeito mais rápido de convalescer.

Eduardo foi para uma festa que durou quatro meses.

Tomou drogas de diversas cores, álcoois de preços variados e teve pesadelos de acordar suado – sonhava que tinha levado um caldo e não conseguia puxar ar.

A cada porre, chamava por Mônica, ora com a cabeça enterrada na mesa, ora com a boca cerrada contra o telefone celular.

Algumas vezes, com a língua enfiada em uma orelha qualquer.

E seu corpo, que já tinha tremido de paixão e ansiedade, então tremia de raiva, sentimento próprio dos apaixonados.

Quando Eduardo passou em casa para buscar alguns de seus pertences, sua barba estava cheia e as crianças, nas aulinhas de inglês.

Eduardo e Mônica fizeram no sofá da sala o sexo mais triste de que se tem notícia.

Eduardo gozou e disse “eu te amo”. Mônica chorou, mas secou depressa a lágrima em uma almofada.

E os dois se despediram com pesar, telefonaram para os amigos, tomaram comprimidos e pediram clemência ao mesmo tempo, mas não ficaram sabendo.

Eduardo abria os olhos, mas não queria se levantar.

Passava a mão no lado direito da cama para ver se Mônica estava lá.

Eduardo fantasiava que ela chegaria no meio da noite, se enfiaria debaixo dos lençóis e daria um beijo de bom-dia, que significaria que ela tinha voltado para ficar.

Mônica fingia que estava tudo bem, enquanto diluía a dor no banheiro e dava descarga.

Emagreceu cinco quilos e perdeu as roupas que Eduardo tinha lhe dado de presente – uma das tentativas silenciosas e inofensivas de se manter perto dele.

Chegava em casa, subia a escada de alumínio, abria a caixa e vestia a aliança por alguns minutos, só para matar a saudade.

Em outro canto da cidade, Eduardo via Acossados pela terceira vez na semana.

No cartório, Eduardo olhava para baixo quando Mônica, de ray-ban, perguntou: “Como está seu avô?”

Eduardo não podia responder ou começaria a chorar.

Mônica disse: “Melhor chorar agora do que na frente do escrivão”.

Eduardo não queria chegar com o nariz vermelho.

E chorar ali não significaria não chorar lá, porque sempre que achava que tinha acabado, que já tinha chorado tudo, descobria que tinha mais para chorar.

Eduardo relatou os meses anteriores em cinco minutos e transpareceu o nervosismo da hora.

Mônica se calou.

As testemunhas testemunharam.

O advogado tentou apressar o que Eduardo poderia adiar por pelo menos trinta anos, mas Mônica tratou de providenciar o quanto antes.

Arrependeu-se.

É duro se separar quando o problema nunca foi falta de amor.

O escrivão leu os termos do divórcio enquanto batucava o lápis na mesa num ritmo conhecido a todos os presentes.

Três homens na baia ao lado falaram alto sobre o pagode da noite anterior.

O advogado olhou para o relógio e pediu que conferissem os números da documentação e o mundo provou que não para só porque Eduardo e Mônica estão se divorciando.

A separação e o divórcio, opostos da paixão, pedem gerúndio: demoram meses, talvez anos.

Já a paixão não admite: quando se vê, já foi.

Eduardo encostou o corpo na parede para não desfalecer enquanto Mônica deixou uma lágrima escorrer por baixo do ray-ban, como se os dois estivessem em um velório de pessoas vivas.

Esperou-se o momento em que o escrivão, como um padre, perguntaria se alguém tinha alguma coisa contra aquele divórcio – fale agora ou cale-se para sempre.

E um carinha do cursinho do Eduardo chutaria a porta do cartório e gritaria que eles não podem se separar, ele completa ela e vice-versa, que nem feijão com arroz.

O escrivão mandaria que selassem as pazes em um abraço, que Mônica daria com a força de uma multidão.

Quando o juiz acabou de ler a sentença, Mônica perguntou onde devia assinar.

Levantou-se e assinou como quem faz o cheque que paga as compras do mês.

Eduardo tentou imitá-la, mas a assinatura saiu tremida.

As testemunhas.

O advogado.

Eduardo foi ao banheiro, onde assoou o nariz vermelho.

Eduardo queria tomar um conhaque.

Os dois entraram sozinhos no elevador e foram direto para o poço, apesar da lotação de seis pessoas.

Eduardo e Mônica se abraçaram na porta do cartório e ficaram na mesma posição por dez minutos, em pranto profundo.

Por vezes, trocaram de lado, para aliviar a dor no pescoço – que em minutos se espalharia por todo o corpo.

Eduardo disse: “Você está linda”.

Depois: “Não me arrependo de ter me casado com você.”

Mônica queria dizer “Casaria com você outra vez”, mas não saiu.

Aos amigos, Mônica disse que era o que tinha de ser feito, que essas coisas acontecem, entre outras besteiras.

Sozinha, chorou as lágrimas de uma vida inteira, molhou a gola do vestido e acabou com os lenços de papel da caixa.

Eduardo encheu a cara de garotas.

A casa anda bagunçada e as crianças andam cabisbaixas.

Do lado de fora, a placa “vende-se”.

Eduardo toma o dever e não deixa os meninos ganharem no videogame.

Mônica pega os filhos nos fins de semana e tem bruxismo às terças e quartas.

Eduardo e Mônica sabem que jamais existirá outro amor como o de Eduardo e Mônica, nem mesmo entre Eduardo e Mônica.

Nessas férias, vão viajar, mas não um com o outro.

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Feliz aniversário, papai!

Na comemoração do Dia dos Pais eu nunca quero falar, escrever ou pensar porque pra mim é um dia de constrangimento.

Mas hoje, 06 de Junho, eu resolvi lembrar um pouco sobre papai.

Se ele estivesse vivo, estaria completando 66 anos.

Nossa relação era um mix de amor e ódio.

Mamãe dizia que isso só acontecia porque éramos iguais.

Durante minha vida ao lado dele, nós nos comunicávamos através de sutilezas, violências e marcas profundas.

Fui crescendo e descobrindo as maravilhas e os abismos de ter um pai instável, inteligente, e algumas vezes desconectado do mundo.

Na minha infância, ele era extremamente rigoroso e inacessível.

Aí que eu passava os dias gravitando ao redor de seus livros e discos, tentando decifrar o mistério que vinha dele.

Eu achava legal ter um pai obscuro.

Os outros pais me pareciam tão óbvios, tão fáceis em seus papéis de cuidar do sustento lar e dos filhos. E certamente eles não tinham em suas estantes um livro com o título O Anticristo, (me ensinando cedo, aquilo que eu descobriria mais tarde, sua ácida crítica ao Cristianismo).

Apenas meu pai acordava angustiado num domingo, e escutava Der Freischütz, de Weber.

Aliás, ele sempre me acordava na hora que bem desejasse e então contava uma história alucinada sobre alguma música.

Papai dizia que eu ainda conheceria um escritor com o nome de Thomaz Mann e eu acreditei.

Saí de casa muito cedo, mas nunca me esqueci dos rituais e hábitos que ele detinha.

Inconscientemente trouxe vários desses para a minha vida.

E percebo que assim, é como se ele estivesse comigo.

Tínhamos formas patéticas de revelar o enorme amor que sentíamos um pelo outro.

Em seu aniversário, eu poderia aparecer com um embrulho que ele insinuava não estar nem aí para mais um par de meias ou um perfume.

Mal eu vinha com o pacote em minhas mãos, e ele com seu humor duvidoso já sorria ironicamente.

Papai parecia ter um prazer naquele ritual que se repetia sistematicamente todo ano.

Eu sentia ódio dessa reação, mas hoje sou feita dessa mesma matéria.

Entendi que o tal riso era de timidez, de não saber agradecer, de não saber receber.

Muitas vezes o riso de papai era de sua própria miséria, pelo desencontro constante que era sua vida com a família.

E assim ele carregou consigo e transmitiu a mim o legado e a sutileza da ironia fina e cortante.

E numa cumplicidade sutil e num acordo tácito que eu carreguei durante muito tempo, aquilo que ele me transmitiu numa coisa viva, forte e um tanto dolorida.

Em 1999, senti uma saudade imensa dele e liguei dizendo que iria voltar para Rondônia, abandonando a faculdade e minha vida não construída em Curitiba.

Ninguém entendeu nada, principalmente mamãe, mas todos respeitaram a minha decisão “adolescente”.

Ainda era início de julho, e eu sentia uma necessidade enorme de resgatar algumas coisas que vinham se perdendo na distância do tempo e do espaço.

Por telefone conversamos por uma hora e meia de um jeito completamente novo. Como numa espécie de mágica, não houve constrangimento e eu disse as palavras que ficaram guardadas durante muitos anos.

Ele, com a saúde frágil por conta do câncer, desligou o telefone emocionado e acordou no dia seguinte no hospital.

A gente nunca sabe calcular muito bem a dimensão de um ato. Ainda mais de um ato de amor, do qual nunca estamos preparados para nos defender.

Voltei para a casa dos meus pais.

Nos 2 últimos anos de sobrevida de papai, durante minha re-convivência com ele, eu ainda sentia que algo nos desequilibrava.

Assim evitei um contato mais próximo, como havia prometido a mim mesma.

Aos poucos eu despencava perplexa num precipício angustiante.

E quando vi meu pai em coma profundo, acompanhei todos os dias seu silêncio numa UTI, também sozinha.

Falei, falei, falei.

Poucas vezes chorei. Sentia vergonha dos olhares dos médicos e enfermeiros.

Todos diziam: Ele não escuta você, prepare seu coração porque só um milagre pode fazer com que ele saia desse quadro.

E eu, teimosa, e acreditando mais na narrativa que cada um constrói para si do que no discurso médico, ia me enchendo de certeza que ainda falaria com meu pai depois de tanto tempo de silêncio e distância.

Depois de 22 dias, vivendo ali comigo, ele faleceu.

Quando o vi dar o último suspiro, corri para as fotos, as cartas, os livros, mas nada tinha a abrangência do meu afeto e daquilo que vivi.

Tocava as coisas do cotidiano, mas tudo parecia ainda mais fluido, evanescente e efêmero.

Todos os meus sentidos, atingidos pela perda, acordaram da letargia que eu tentava retomar.

Entrei em descompasso.

Tudo ganhara, repentinamente, um contorno triste e iridescente.

Era outono em minha vida, e as folhas caiam pálidas dentro de mim.

Assim o tempo se imobilizava na espera de um longo inverno que eu já podia prever.

Foi ao perdê-lo que o primeiro golpe de dor me atravessou o peito.

Eram as tiranias da distância na intimidade que dançavam dentro de mim.

E talvez o inverno que eu esperava, já tivesse chegado; talvez ele sempre tivesse existido permeando essa relação enigmática.

Na morte de meu pai senti o frio cortante que vinha de dentro e se expandia para o mundo.

Chorei por algumas horas seguidas naquela manhã.

E hoje, antes de me emocionar com a lembrança dos rituais em seu aniversário, pensei em reescrever esse amor infinitamente profundo, denso e extenso.

Amor esse, que de alguma maneira, me permitiu amar meu pai e mergulhar junto com ele no insondável oceano de possibilidades que o devir nos reservou.

Nesse ano, no mês do meu aniversário, completarão 10 anos que papai viajou em sua nave lírica, mas não sem antes me levar com ele em muitas de suas sábias perplexidades.

E dessas viagens é o que mais sinto saudades…

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