“Eduardo e Mônica” – Por Rosana Caiado Ferreira

Em contrapartida ao filme publicitário (Eduardo e Monica – O Filme),  lançado pela VIVO, esse texto é bem bacana.

Vejam o vídeo aqui: http://www.youtube.com/watch?v=gJkThB_pxpw

“Eduardo e Mônica” – Por Rosana Caiado Ferreira

Mônica já tinha ameaçado duas vezes, mas Eduardo não tinha levado a sério.

Na terceira, falou manso, às oito da manhã, e Eduardo percebeu que era pra valer.

Saiu de casa antes do almoço, com a roupa do corpo – calça jeans e camiseta de malha.

Deixou o utilitário, os gêmeos, a segunda das três parcelas da geladeira que cospe gelo e uma dúzia de fotos da última viagem rasgadas ao meio sobre os lençóis de fios de seda, enquanto Mônica penteava o cabelo diante do reflexo que o espelho do banheiro demoraria a esquecer – Mônica escovando os dentes de Eduardo, Eduardo beijando Mônica com pasta, Mônica dando gargalhadas de olhar para o teto, as crianças batendo na porta.

Embora Mônica tivesse tomado as rédeas do fim, o desejo da separação era compartilhado.

Mas Eduardo não podia imaginar que nem sua mãe, nem seu melhor amigo, nem sua mulher (ex), não fosse segurá-lo pelo braço e dizer “Não pode! Já pro castigo!”

Uma espiral no peito de Mônica doeu como se alguém tivesse aberto o ralo do amor.

Caiu um temporal que lavou os muros da casa que nunca mais será a mesma, ainda que as janelas, as panelas e os tapetes se mantenham iguais – perderam o sentido.

Sofrer uma separação é viver todas outra vez.

Mônica passou um barbante pelas pilhas de fotos separadas por temas (México, Fernando de Noronha, Jeri, aniversários, outras) e colocou dentro de uma caixa, junto com os cartões de aniversário e a aliança de ouro branco – Eduardo tirou a dele assim que soube que Mônica estava sem a dela.

Subiu a escada de alumínio e empurrou a caixa na parte de cima do armário, no fundo – esconderijo preferido do passado.

Demorou dois degraus para entender que as lembranças independem de provas e, como os gêmeos estavam na natação, se permitiu algumas lágrimas sentada ao pé da escada de alumínio, pela certeza de já ter vivido o grande amor de sua vida.

A partir de então seriam apenas histórias circunstanciais, sem a entrega a que havia se acostumado.

Eduardo explicava para Mônica coisas sobre o amor, a saudade, a família e o final feliz.

“Então, vamos namorar?”

E Mônica riu e quis saber se ele estava pedindo anestesia.

“Por favor”.

Ela preferiu experimentar a dor de uma só vez, como se fosse esse o jeito mais rápido de convalescer.

Eduardo foi para uma festa que durou quatro meses.

Tomou drogas de diversas cores, álcoois de preços variados e teve pesadelos de acordar suado – sonhava que tinha levado um caldo e não conseguia puxar ar.

A cada porre, chamava por Mônica, ora com a cabeça enterrada na mesa, ora com a boca cerrada contra o telefone celular.

Algumas vezes, com a língua enfiada em uma orelha qualquer.

E seu corpo, que já tinha tremido de paixão e ansiedade, então tremia de raiva, sentimento próprio dos apaixonados.

Quando Eduardo passou em casa para buscar alguns de seus pertences, sua barba estava cheia e as crianças, nas aulinhas de inglês.

Eduardo e Mônica fizeram no sofá da sala o sexo mais triste de que se tem notícia.

Eduardo gozou e disse “eu te amo”. Mônica chorou, mas secou depressa a lágrima em uma almofada.

E os dois se despediram com pesar, telefonaram para os amigos, tomaram comprimidos e pediram clemência ao mesmo tempo, mas não ficaram sabendo.

Eduardo abria os olhos, mas não queria se levantar.

Passava a mão no lado direito da cama para ver se Mônica estava lá.

Eduardo fantasiava que ela chegaria no meio da noite, se enfiaria debaixo dos lençóis e daria um beijo de bom-dia, que significaria que ela tinha voltado para ficar.

Mônica fingia que estava tudo bem, enquanto diluía a dor no banheiro e dava descarga.

Emagreceu cinco quilos e perdeu as roupas que Eduardo tinha lhe dado de presente – uma das tentativas silenciosas e inofensivas de se manter perto dele.

Chegava em casa, subia a escada de alumínio, abria a caixa e vestia a aliança por alguns minutos, só para matar a saudade.

Em outro canto da cidade, Eduardo via Acossados pela terceira vez na semana.

No cartório, Eduardo olhava para baixo quando Mônica, de ray-ban, perguntou: “Como está seu avô?”

Eduardo não podia responder ou começaria a chorar.

Mônica disse: “Melhor chorar agora do que na frente do escrivão”.

Eduardo não queria chegar com o nariz vermelho.

E chorar ali não significaria não chorar lá, porque sempre que achava que tinha acabado, que já tinha chorado tudo, descobria que tinha mais para chorar.

Eduardo relatou os meses anteriores em cinco minutos e transpareceu o nervosismo da hora.

Mônica se calou.

As testemunhas testemunharam.

O advogado tentou apressar o que Eduardo poderia adiar por pelo menos trinta anos, mas Mônica tratou de providenciar o quanto antes.

Arrependeu-se.

É duro se separar quando o problema nunca foi falta de amor.

O escrivão leu os termos do divórcio enquanto batucava o lápis na mesa num ritmo conhecido a todos os presentes.

Três homens na baia ao lado falaram alto sobre o pagode da noite anterior.

O advogado olhou para o relógio e pediu que conferissem os números da documentação e o mundo provou que não para só porque Eduardo e Mônica estão se divorciando.

A separação e o divórcio, opostos da paixão, pedem gerúndio: demoram meses, talvez anos.

Já a paixão não admite: quando se vê, já foi.

Eduardo encostou o corpo na parede para não desfalecer enquanto Mônica deixou uma lágrima escorrer por baixo do ray-ban, como se os dois estivessem em um velório de pessoas vivas.

Esperou-se o momento em que o escrivão, como um padre, perguntaria se alguém tinha alguma coisa contra aquele divórcio – fale agora ou cale-se para sempre.

E um carinha do cursinho do Eduardo chutaria a porta do cartório e gritaria que eles não podem se separar, ele completa ela e vice-versa, que nem feijão com arroz.

O escrivão mandaria que selassem as pazes em um abraço, que Mônica daria com a força de uma multidão.

Quando o juiz acabou de ler a sentença, Mônica perguntou onde devia assinar.

Levantou-se e assinou como quem faz o cheque que paga as compras do mês.

Eduardo tentou imitá-la, mas a assinatura saiu tremida.

As testemunhas.

O advogado.

Eduardo foi ao banheiro, onde assoou o nariz vermelho.

Eduardo queria tomar um conhaque.

Os dois entraram sozinhos no elevador e foram direto para o poço, apesar da lotação de seis pessoas.

Eduardo e Mônica se abraçaram na porta do cartório e ficaram na mesma posição por dez minutos, em pranto profundo.

Por vezes, trocaram de lado, para aliviar a dor no pescoço – que em minutos se espalharia por todo o corpo.

Eduardo disse: “Você está linda”.

Depois: “Não me arrependo de ter me casado com você.”

Mônica queria dizer “Casaria com você outra vez”, mas não saiu.

Aos amigos, Mônica disse que era o que tinha de ser feito, que essas coisas acontecem, entre outras besteiras.

Sozinha, chorou as lágrimas de uma vida inteira, molhou a gola do vestido e acabou com os lenços de papel da caixa.

Eduardo encheu a cara de garotas.

A casa anda bagunçada e as crianças andam cabisbaixas.

Do lado de fora, a placa “vende-se”.

Eduardo toma o dever e não deixa os meninos ganharem no videogame.

Mônica pega os filhos nos fins de semana e tem bruxismo às terças e quartas.

Eduardo e Mônica sabem que jamais existirá outro amor como o de Eduardo e Mônica, nem mesmo entre Eduardo e Mônica.

Nessas férias, vão viajar, mas não um com o outro.

Anúncios
  1. #1 por Ana Maria Roos em 20 de junho de 2011 - 11:08

    maravilhoso…

  2. #2 por Alice Siqueira (@alicesiqueira) em 13 de setembro de 2011 - 15:04

    Chorei lendo o texto… A vida como ela é!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: