Arquivo de julho \26\UTC 2010

Os sobreviventes – Por Caio Fernando Abreu

Mas eu não podia, ou podia mas não devia, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar.” “Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. ” “Pensando melhor, continuavam sem saber, fazia muitos anos, se a realidade seria mesmo meio mágica ou apenas levemente paranóica, dependendo da disposição de cada um para escarafunchar a ferida.” “Preciso entrar com certa ordem no que digo, e dizer de novo, vê se me entendes: ele não se afasta, mas é dentro dele que eu me afasto. Dentro dele, eu espio o de fora de nós. E não me atrevo.” “. Fico quieto. Primeiro que paixão deve ser coisa discreta, calada, centrada. Se você começa a espalhar aos sete ventos, crau, dá errado. Isso porque ao contar a gente tem a tendência a, digamos, “embonitar” a coisa, e portanto distanciar-se dela, apaixonando-se mais pelo supor-se apaixonado do que pelo objeto da paixão propriamente dito. Sei que é complicado, mas contar falsifica, é isso que quero dizer — e pensando mais longe, por isso mesmo literatura é sempre fraude. Quanto mais não-dita, melhor a paixão. Melhor, claro, em certo sentido que signifícatambém o pior: as mais nobres paixões são também as mais cadelas, como aquelas que enlouqueceram Adele H., levaram Oscar Wilde para a prisão ou fizeram a divina Vera Fischer ser queimada feito Joana d’Arc por não ser uma funcionária pública exemplar. ” E se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo, No tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros. No rabo. O que é que você queria? Rendas brancas imaculadas? Será que amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente você até pode gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão, se tudo isso for o que chamam de amor. Amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. Do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual. O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. Se amor for a coragem de ser bicho. Se amor for a coragem da própria merda. E depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem nenhuma, porque deixou de ter importância. O que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. Porque então você se ama também. “Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.””Só quero ir indo junto com as coisas, ir sendo junto com elas, ao mesmo tempo, até um lugar que não sei onde fica, e que você até pode chamar de morte, mas eu chamo apenas de porto.”” As pessoas falam coisas, e por tras do que falam há o que sentem, e por trás do que sentem, há o que são e nem sempre se mostra …” ( Natureza Viva – Morangos Mofados) … Por favor, não me empurre de volta ao sem volta de mim,há muito tempo estavaacostumado a apenas consumir pessoas como se consomem cigarros, a gente fuma, esmaga a ponta no cinzeiro, depois vira na privada, puxa a descarga, pronto, acabou. Desculpe mas foi só mais um engano? E quantos ainda restam na palma da minha mão? Ah, me socorre que hoje não quero fechar a porta com essa fome na boca… ‘chegue bem perto de mim. Me olhe , me toque, me diga qualquer coisa.ou não diga nada, mas chegue mais perto. Não seja idiota, não deixe isso se perder, virar poeira, virar nada.'””porque há o momento do irremediável como existem os momentos anteriores de passar adiante em silêncio tentando tirar o espinho da carne há o homemnto em que o irremediável se torna tangível””… essa aceitação ingênua de quem não sabe que viver é, constantemente, construir, e não derrubar. De quem não sabe que esse prolongado construir implica erros – e saber viver implica em não ver esses erros, em suavizálos e distorce-los ou mesmo eliminálos para que o restante da construção não seja ameaçado.””E recomeçar é doloroso. Faz-se necessário investigar novas verdades, adequar novos valores e conceitos. Não cabe reconstruir duas vezes a mesma vida numa só existência. É por isso que me esquivo e deslizo por entre as chamas do pequeno fogo, porque elas queimam – e queimar também destrói.”Os dragões não Conhecem o Paraíso… Mas só muito mais tarde, como um estranho flash-back premonitório, no meio duma noite de possessões incompreensíveis, procurando sem achar uma peça de Charlie Parker pela casa repleta de feitiços ineficientes, recomporia passo a passo aquela véspera de São João em que tinha sido permitido tê-lo inteiramente entre um blues amargo e um poema de vanguarda. Ou um doce blues iluminado e um soneto antigo. De qualquer forma, poderia tê-lo amado muito. E amar muito, quando é permitido, deveria modificar uma vida – reconheceu, compenetrado. Como uma ideologia, como uma geografia: palmilhar cada vez mais fundo todos os milímetros de outro corpo, e no território conquistado hastear uma bandeira. Como quando, olhando para baixo, a deusa se compadece e verte uma fugidia gota do néctar de sua ânfora sobre nossas cabeças. Mesmo que depois venha o tempo do sal, não do mel. …]””Não vou perguntar porque você voltou,acho que nem mesmo você sabe…Eu também não queria perguntar,pensei que só no silêncio fosse possível construir uma compreensão,mas não é,sei que não é,você também sabe,pelo menos por enquanto,talvez não se tenha ainda atingido o ponto em que um silêncio basta?É preciso encher o vazio de palavras,ainda que seja tudo incompreensão Só vou perguntar porque você se foi, se sabia que haveria uma distância, e que na distância a gente perde ou esquece tudo aquilo que construiu junto.E esquece sabendo que está esquecendo… “”Não sei como me defender dessa ternura que cresce escondido e, de repente, salta para fora de mim, querendo atingir todo mundo. Tão inesperada quanto a vontade de ferir, e com o mesmo ímpeto, a mesma densidade. Mas é mais frustrante. Sempre encontro a quem magoar com uma palavra ou um gesto. Mas nunca alguém que eu possa acariciar os cabelos, apertar a mão ou deitar a cabeça no ombro. Sempre o mesmo círculo vicioso: da solidão nasce a ternura, da ternura frustrada a agressão, e da agressividade torna a surgir a solidão. Todos os dias o ciclo se repete, às vezes com mais rapidez, outras mais lentamente. E eu me pergunto se viver não será essa espécie de ciranda de sentimentos que se sucedem e se sucedem e deixam sempre sede no fim.””Somos todos imortais. Teoricamente imortais, claro. Hipocritamente imortais. Porquenunca consideramos a morte como uma possibilidade cotidiana, feito perder a hora notrabalho ou cortar-se fazendo a barba, por exemplo. Na nossa cabeça, a morte não acontece como pode acontecer de eu discar um número telefônico e, ao invés de alguématender, dar sinal de ocupado. A morte, fantasticamente, deveria ser precedida de certo’clima’, certa ‘preparação’. Certa ‘grandeza’.Deve ser por isso que fico (ficamos todos, acho) tão abalado quando, sem nenhuma preparação,ela acontece de repente. E então o espanto e o desamparo, a incompreensão também, invadem asuposta ordem inabalável do arrumado (e por isso mesmo ‘eterno’) cotidiano. A morte de alguém conhecido e/ou amado estupra essa precária arrumação, essa falsa eternidade. A morte eo amor. Porque o amor, como a morte, também existe – e da mesma forma, dissimulada. Por trás,inaparente. Mas tão poderoso que, da mesma forma que a morte – pois o amor também é uma espécie de morte (a morte da solidão, a morte do ego trancado, indivisível, furiosa e egoisticamente incomunicável) – nos desarma. O acontecer do amor e da morte desmascaramnossa patética fragilidade.
(Caio Fernando Abreu in “Os Dragões não Conhecem o Paraíso”)
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Sentimentos – Por Danuza Leão

Desde a mais tenra infância, fomos ensinados a refrear certos sentimentos. Era feio ter inveja, raiva, ódio, e por aí vai. Mas será mesmo? E quem é a santa que só tem no coração bondades e caridades? Querendo ou não, os sentimentos – bons e maus – surgem, mas nos ensinaram que os piores devem ser afastados em nome já esqueci de quê. E como fingir que eles não existem, como ignorar o que está dentro do peito? Que tal tentar conviver com eles reconhecendo que somos apenas pessoas normais, para o mal e para o bem?

Digamos que sua grande amiga seja maravilhosa, tenha 10 centímetros a mais do que você e 10 quilos a menos. Além disso, é charmosa, inteligente, simpática e generosa – o que, aliás, não é nenhuma vantagem, com tantas qualidades – e consegue seduzir, sem fazer o menor esforço, homens, mulheres e crianças. Que raiva, que inveja. Fazer o quê? Em primeiro lugar, reconhecer o que está sentindo e as razões desses sentimentos. Não será preciso ir longe a ponto de dizer: “Eu te odeio porque você é mais bonita do que eu”. Mas, quando estiver sozinha, pode ficar com toda a raiva do mundo e odiá-la com todas as forças do seu coração – para aliviar o peito e não ter um infarto; isso ajuda a passar. E, quando adorar uma pessoa, deve também ir fundo e dizer que gosta sem nenhum pudor, pois gostar e fingir indiferença não tem a menor graça.

Já reparou como, para certas pessoas, é difícil elogiar? Quem escolher viver honestamente todos os seus sentimentos ai perder alguns amigos, mas, em compensação, os que ficarem vão ser para sempre. De que adianta o telefone tocar o dia inteiro se é preciso fingir que é indiferente para ser querida, para ter com quem ir à praia?

Quando tiver vontade de torcer o pescoço de seu filho adorado – porque isso às vezes acontece –, permita-se reconhecer e, se puder, diga a alguém – uma amiga, o padre ou o analista – quanto gostaria, naquele momento, de esganar a carne da sua carne e o sangue do seu sangue. Depois que a raiva passar, diga a ele, que vai achar muita graça. Assim, você estará abrindo para ele a possibilidade de lhe dizer um dia a mesma coisa, o que vai ser maravilhoso para a amizade de vocês. Porque entre mãe e filho, além do amor, se tiver também amizade, é a melhor coisa do mundo. E convém que ele saiba que, quanto mais próximas as pessoas, mais ocasiões e razões temos para amá-las ou odiá-las, e que isso é normal (e não deve trazer culpas).

Como é bom falar mal de uma pessoa, dizer com carinho que ela não vale nada e terminar confessando que é exatamente por isso que é louca por ela. Quando se ouve uma declaração de amizade dessas, nunca mais se esquece, e ser especial para alguém é tudo que se quer.

E mais: sofrer, chorar, rir, abraçar, beijar, passar noites em claro, de tanta felicidade ou de tanto sofrimento, acordar um dia achando que o mundo é todo seu e no outro não conseguir nem se levantar da cama de tanta tristeza sem nenhum motivo – é isso que diferencia uma vida plena e rica de outra morna e medíocre.

Dinheiro se economiza, mas emoções, sejam de felicidade ou de tristeza, de amor ou de raiva, nunca. Vá sempre fundo – a não ser que você esteja na vida a passeio, o que é uma escolha; uma triste escolha, aliás. Porque todos os sentimentos são nobres – inclusive os piores.

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Porque escolho sempre: O AMOR

Aqueles que têm certezas absolutas erram mais.

Todos os dias temos de fazer escolhas em nossas vidas.

Algumas delas são simples; outras, mais complexas.

Escolhemos a roupa, o sapato, a alimentação, o trajeto.

Escolhemos a escola, o trabalho, as prioridades.

E como não é possível resolver todos os problemas de uma única vez, vamos escolhendo aqueles que precisam ser solucionados antes.

Algumas escolhas simples ficam complicadas quando complicamos a vida.

Fazer o jantar – por exemplo – se torna um calvário para quem está angustiado.

Aos poucos as escolhas vão exigindo mais reflexão e o resultado da escolha vai ficando mais sério.

Uma coisa é escolher a comida errada no cardápio e decidir que não vai pedir mais aquele prato.

Outra coisa é perceber que casou com a pessoa errada.

A escolha do casamento tem de ser mais demorada do que a do produto de uma prateleira em um supermercado.

Como somos imperfeitos, a dúvida sempre fará parte de nossas escolhas.

E é diante da dúvida que amadurecemos.

Pessoas que têm certezas absolutas erram mais e sofrem mais com isso.

A dúvida nos torna mais humildes, mais abertos ao diálogo.

Nesses momentos é que percebemos nossa maturidade frente aos obstáculos.

Os mais concretos ou os mais abstratos.

Uma modesta sugestão: Diante das dúvidas que surgirem, escolha O AMOR.

Diante de sentimentos mesquinhos, como a inveja, o ciúme, a vingança; escolha O AMOR.

Antes de falar, pense. Mas pense com amor.

Antes de agredir, lembre-se de que o tempo da cicatriz é mais demorado do que o tempo do comedimento.

Antes de usar a palavra como instrumento de maldizer, lembre-se de que o silêncio é o grande amigo e de que, na dúvida, o outro deve receber sua compaixão.

Diante do comodismo, da alienação, escolha o amor em ação.

Assim fizeram os apóstolos, mesmo sabendo que seriam incompreendidos.

Assim fez Francisco de Assis quando ousou chamar a todos de irmãos.

Ou Dom Bosco com os jovens que só se aquietavam quando se sentiam amados.

Assim fez Madre Tereza de Calcutá que fazia a escolha do amor diante de cada próximo que dela precisasse.

Diante da boa dúvida, é bom pedir ajuda.

Para nossos, irmãos amigos e principalmente para Deus, a essência do Amor.

Os desafios são muitos.

É por isso que sozinho fica difícil.

Como diz a canção: “Eu pensei que podia viver por mim mesmo. Eu pensei que as coisas do mundo não iriam me derrubar”.

Que sejamos responsáveis em nossas escolhas simples ou mais complexas.

Mais uma vez, com amor, tudo fica mais fácil e mais bonito, SEMPRE!

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– Meus sobrinhos –

 

Há um dito popular que diz: “…se deus não te dá filhos, o diabo te dá sobrinhos”.

Essa “sabedoria popular” não sabe de nada.

Sobrinhos são a melhor coisa do mundo.

Jonny, Erica e Felipe são minha inspiração permanente, meus amores para sempre.

O caçula é Felipe, 7 anos.

Esse é uma parte vital de tudo que eu acredito.

Ele poderia ser descrito como filho do Duda e da Verônica, neto do Luiz e da Lúcia.

Poderia, mas na verdade não pode.

Nada disso é minimamente suficiente.

Lembro-me que aos 2 anos, aquele bichinho de cabelos loiros e olhos pequenos arrastava os móveis mais pesados que encontrava pela frente, apenas para mostrar que era forte.

O mais engraçado é que se eu por acaso me atrevesse a mover um dedo para ajudá-lo, recebia um olhar de morte com o qual poderia ser petrificada para todo o sempre.

Desde muito cedo o Lipito, mostrava a língua só por mostrar e depois dar risadinhas.

Assim como a tia ele é provocador.

É dotado a ação e reação, sempre testando comportamentos e limites.

Erica e Jonny só pude encontrar agora.

 As agruras da vida e os desencontros de família nos separaram por inúmeros anos, mas eu os descobri.

(Ou será que fui descoberta?)

E hoje vivemos uma relação familiar de amor que é deliciosa.

O que mais admiro na Erica, 13 anos é sua imensa generosidade.

Ela divide tudo o que tem e nunca pensa que pode estar perdendo qualquer coisa quando doa suas horas ao ajudar o outro.

Acho-a parecida comigo, mas ela tem essa melhor parte um tanto + aguçada.

Erica não tem medo de se arriscar.

Ela sabe que não deve reter o que está nela.

Precocemente compreende que compartilhar é o princípio das almas verdadeiramente inteligentes.

Erica é minha bonequinha com aqueles olhos claros e seu esmalte amarelo.

Imagino que quando bebê era o chamego de sua mãe, minha irmã.

Convivendo com ela eu confirmo a tese de que o mundo é bem maior do que nós. 

Conversar com minha sobrinha é sempre um imenso prazer.

Nela existe um lugar receptivo para falar sobre o mundo, as pessoas, a política, o jogo de futebol, a moda ou o que eu quiser. 

Erica é minha inteligência permanante, sagaz.

Jonny, 28 anos é o mais tímido, chega parecer arisco.

Talvez porque seja homem, adulto, marido e quase da idade da tia.

Tivemos e temos pouco contato, eu gostaria de mais, muito mais. Poém já tenho sobre ele uma certeza: “ele é o tesouro daquela casa.”

Como sabiamente disse Fernando Pessoa:

“E nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.”

Logo, o Jonny é o meu campeão.

Por fim atesto, nesse meu tempo de tia, meu amor por esses 3 só faz crescer.

E não por traços da genética.

Mas pela capacidade, totalmente abstrata e difícil de nomear, de me reconhecer tão intensamente em cada um deles.

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Eventos de inverno são desculpa para pegar a estrada.

Paranapiacaba, na região metropolitana de São Paulo, recebe festival de inverno com atividades em diversos espaços

Montado à beira de uma represa, o Galpão Busca Vida é um charmoso lugar na zona rural de Bragança Paulista que produz uma cachaça adoçada com mel –gelada, ela costuma fazer um sucesso danado. Não fosse esse o espaço onde ocorrem os shows do Festival de Arte Serrinha, dificilmente seria conhecido por quem não mora na região. São eventos como esse que levam o paulistano a desbravar cidades próximas à capital nesta época, indo a destinos como Paranapiacaba. Há dez anos, a vila promove uma festa que vale a viagem de trem –até para entrar no clima de aventura. Nesta edição, a novidade é o Expresso Turístico, saindo da estação Luz –somente aos domingos.

FESTIVAL DE INVERNO DE PARANAPIACABA A vila tem atividades em diversos espaços. Destaque para os shows no clube União Lira Serrano, onde toca a cantora Lulina no sábado (17). No mesmo dia haverá ainda performances dos cantores Léo Maia, Ed Motta e Fernanda Porto. www.santoandre.sp.gov.br.

Clube União Lira Serrano. R. Antonio Olyntho, s/ nº, Centro, Santo André, SP. Tel. 0800-0191944. Milton Guedes, dom.: 20h. Lulina, sáb.: 16h30. Até 25/7. Livre. Grátis.

Campo de Futebol. Av. Fox, s/ nº, Paranapiacaba, Santo André, SP. Tel. 0800-0191944. Léo Maia, sáb.: 15h. Ed Motta, sáb.: 19h. Até 25/7. Livre. Grátis. Antigo Mercado. R. Campos Sales, s/ nº, Paranapiacaba, Santo André, SP. Tel. 0800-0191944. Fernanda Porto, sáb.: 17h30. Até 25/7. Livre. Grátis.

FESTIVAL DE INVERNO – ACORDES NA SERRA 2010 Em Cunha, as atrações espalham-se por áreas ao ar livre e espaços culturais. A praça da Matriz terá shows de MPB, pop rock, samba e instrumentais. No sábado (17), haverá um evento especial, o “Espiando a Lua na Luneta”, para observar astros. Pça. da Matriz, s/ nº, Centro, Cunha, SP. Tel. 0/xx/12/3111-2630. Quarteto de Cordas Prestíssimo, dom.: 14h. Banda Terra Mix, dom.: 22h. Mulheres de Chico, sáb.: 23h. Livre. Grátis. Av. Isaura Maria da Conceição, s/ nº, Centro, Cunha, tel. 0/xx/12/3111-2630. “Espiando a Lua na Luneta”, sáb.: 24h. Livre. Grátis. SEMANA DA VELA Em Ilhabela, a competição de vela (até 24/7) é o mote para diversas atividades culturais (shows, oficinas, comédia “stand-up” etc.), que se estendem até agosto. O evento começa no sábado (17), com uma aula de ioga (10h), segue com a apresentação do espetáculo infantil “Chapéu de Palha” (16h) e se encerra com o show da banda Quasímodo, às 21h. Praça Coronel Julião. Centro, Ilhabela, SP. Tel. 0/xx/12/3895-7492. Sáb.: a partir das 10h. Até 1º/8. Livre. Grátis.

FESTIVAL DE ARTE SERRINHA Na Fazenda Serrinha ocorrem oficinas (confira programa no site), com destaque para a de moda com o estilista Jum Nakao (23 a 25/7). As atrações musicais concentram-se no galpão, como a banda Tigre Dente de Sabre, que toca sábado (17) –estão programados shows de Edgar Scandurra (dia 24) e Otto (31/7), entre outros. http://festivaldearteserrinha.uol.com.br. Estr. Serrinha, km 3, Bragança Paulista, SP. Tel. 0/xx/11/2473-5984. 800 lugares. Oficinas: seg. a dom.: 10h às 18h. Preços: R$ 250 a R$ 300. Até 18/7. Não recomendado para menores de 18 anos. Galpão Busca Vida. Estr. da Serrinha, km 3, Serrinha, Bragança Paulista, SP. Tel. 0/xx/11/2473-5984. Show: Tigre Dente de Sabre, 90 min., 18 anos, ingr: R$ 15 a R$ 40, sáb.: 24h. Até 31/7. Estac. grátis.

Fonte: Folha de SP

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Friends

Todo mundo diz que é difícil definir o amor.

Até sinto que seja.

Mas para mim o exercício mais árduo ainda é definir a amizade.

Na adolescência fui do tipo que criava categorias enquadrando as pessoas aqui ou ali.

Lembro ainda de algumas amigas que faziam rankings, pontuavam com estrelinhas… até elaboravam listas.

Eu cresci e felizmente hoje, não sigo esse ritmo.

Penso que pouco me preocupa a questão: “distinguir, a cada momento da vida, o nível de merecimento de cada um a um gesto meu.”

Porque sei da minha lealdade a cada um a quem classifico como amigo.

(Aliás, LELADADE é sem dúvida uma das palavras mais bonitas da Língua Portuguesa)

E no meu caso, estes gestos muito acontecem, espontaneamente, guiados por um parâmetro subjetivo que não se explica.

 Ah, reconheço que existe uma diferença substancial entre aquilo que acrescenta e aquilo que faz falta.

Eu tenho amigos com quem raramente falo, por exemplo, aqueles da minha época de Rondônia.

Esses são pessoas especiais que já foram essenciais na minha vida, e mantenho a ilusão de que posso contar com eles quando precisar.

É como se os amigos fossem uma espécie de reserva técnica para as necessidades do espírito.

E ainda habitassem um lugar preso no tempo, ao qual posso recorrer quando for necessário acionar em mim uma pessoa que já fui.

Todavia, assim como eu, estes amigos que julgo suspensos no tempo, vivem suas vidas e se transformam em outras pessoas à medida que os anos passam.

Já os prazeres, descobertas, sofrimentos, e experiências que acumulamos (enquanto “longes” um do outro), provocam um estranhamento que só encontra algum sossego quando retorna as memórias do que fomos um dia,  e que talvez ainda sejamos, ou quiséssemos ser um para o outro.

Eu – nesse instante da minha vida – não reconheço alguns caminhos desses amigos.

Daí eu penso: “Fulano (a) não era assim”.

E o (a) fulano (a) pensa: “A Ana não era assim”.

Creio que para estes amigos (assim como para mim), resta a saudade episódica.

Resta a alegria genuína de rever e o passo adiante que grita, categórico: nos gostamos, nos lembramos, nos retomamos, mas não nos fazemos tanta falta.

Penso que a vida seria melhor se nos víssemos mais, mas talvez isso apenas revelasse que já não somos quem julgamos ser.

E a esse modo (com a maioria dos amigos) estabeleço uma relação estável, imaginada, ambientada em um passado que pode nunca reexistir.

Mas, e os meus vínculos de amizades hoje?

Esses são tão fortes quanto foram aqueles outros um dia?

Sinceramente? Eu não sei.

Talvez estejam apenas pontualmente aliados, eventualmente solidários, em um momento ou outro compartilhando projetos, sentimentos, valores e percepções sobre a vida.

Será pelo olhar afetuoso do Leo Neto (que se derrama sobre mim de modo totalmente imprevisto), que eu me sinto em contato verdadeiro com a amizade?

Eu sei que ao lado dele tenho tido momentos que me parecem tão valiosos quanto as lembranças dos velhos melhores amigos.

Helô, Renata , Daniel e Julia são minha espécie de promessa de que no futuro, quem sabe, eu possa amarrar com esses alguns nós importantes.

 Por hora, todos nos respeitamos, ambos nos admiramos, e muito nos desconhecemos.

Independente de onde (eu ou eles) possamos estar daqui 10 anos, com esses gostaria de estabelecer uma relação não contida, não fragmentada, mas temerosa e projetada em um futuro que pode nunca ocorrer.

Tudo que vem desses me acrescenta e é bom.

 E como (não só aparentemente) eu me baste, só me revelo em minha complexidade diante de um outro.

 E eles são estes outros a quem habitualmente dedico minha bárbara intimidade.

 Meus amigos – independente do momento – mas vocês que me aceitam nos piores dias pacientemente, e cuidam de mim como quem cuida de um filhote ferido.

 Você, com a mesma disposição, que ouve minhas belezas tolas da vida e as profundezas de meu espírito atormentado.

 Você que me permite tagarelar em um dia e silenciar em outro.

 Você que eu sempre peço que ouça aquela música, leia aquele livro ou prove aquele prato,  não por mim, mas por você, ou por você mas comigo.

 Você que têm comigo um olhar cúmplice.

E percebe que nossa cumplicidade se estabelece não apenas no olhar, em um jeito de respirar ou caminhar.

 Você que não importa de chegar lá em casa e não ter nada apetitoso na cozinha, mas se preocupa em vir.

 Você que algumas vezes também é oculto e obscuro, pois mesmo isso que pode ser o pior, se conecta com a estranheza que eu sinto em mim mesma.

 Uma palavra: O-B-R-I-G-A-D-A!

Minha amizade não é dotada de lógica.

Sei que ninguém nasce melhor amigo (ao contrário dos adolescentes, que se amam e se abandonam com a mesma intensidade sincera), a vivência comprova que amigo é aquele que resiste às diferenças que pontuam as personalidades.

Então se nos atraímos pelo que nos é oposto, a verdade é que nos construímos verdadeiramente com quem nos parece igual e, portanto, complementar.

 É ao lado de cada um de vocês que eu não sento culpa por ser insana, tola e despudorada.

 Nós – juntos – creio que temos uma essência andrógina.

Sei que tudo de que precisamos se encontra em nós mesmos.

Não vamos pensar pensar no amanhã por que com vocês como melhores amigos, aciono em mim aquilo que falta expressar.

 O que parece faltar, e que então não falta mais.

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