Arquivo de junho \30\UTC 2010

– Zurich, sim ou não? –

Hoje acordei atrasada e o dia amanheceu um tanto mais belo, com um cheiro de conhecido.

No trajeto até o trabalho pensei: “ se nada atravessar meu caminho, será um dia como muitos outros: nem muito excitante, nem muito modorrento, apenas habitual como a vida no gerúndio.”

No entanto, mal entrei no escritório e já recebi um bilhete com um recado da Suíça.

(Ana, favor retornar a ligação para a Bubendorf, ela está no número 00xx41…)

Assim algo atravessou, queira eu entender ou não, estando preparada ou não, algo se interpôs.

Na ligação recebi um convite que nunca havia se derramado daquele jeito, uma possibilidade que me fez ferver, um conceito que me desestruturou, uma perspectiva que desestabilizou todos os meus dias sem concretudes.

E então camarada Deus, o que fazer?

A proposta está ali e em no máximo 90 dias reclamará uma decisão.

O dia que nasceu tarde e mais belo parece agora nebuloso, e o cheiro de conhecido desapareceu.

Surpresas, surpresas, surpresas… como elas me atravessam e corroem.

Sinto como se a terra interna saísse pelo estômago.

Possibilidade?

Fantasia?

Desejo?

A verdade é que nada mais resta a não ser ver a mim mesma em perspectiva, para dentro.

Do futuro nada sei, a não ser que ele decorre do que escolhemos hoje.

A vida sempre trará suas impertinências, e a maior delas é este não-saber o que teria sido se tivéssemos feito a outra escolha.

Preciso urgentemente agir como no poema de Cecília Meireles: “ou isto ou aquilo”.

Devo ser profundamente honesta e tomar a única decisão decente: aquela que diz respeito à minha própria natureza, àquilo que me distingue dos demais.

Então a vida é o que eu construir passo a passo, mirando o mais alto que posso na linha dos meus desejos?

Quanta dúvida.

Quanto questionamento e foi apenas uma proposta.

Por que tudo me engole?

Enfim, sou o que eu decidir.

Sem receio do futuro.

Sem culpa pelo passado.

Quanto aos conselhos, por mais que me digam o que fazer e por mais que conheçam: só eu sei o que vai por dentro, o que me move de fato, e o que eu preciso para “ser”.

Por hora vou retirar meu dilema do aspecto moral, e tudo vai se tornar água boa de beber.

No mais, os dias voltarão a ser belos.

Eu estou no comando do que importa na vida que escolhi: ter, ficar, focar, fundar… e atravessar o oceano.

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Qual o meu maior sonho possível?

É claro que uma pessoa que vive afogada em sentimentos não tem um sonho, mas muitos.

Afinal, eu espero que o mundo seja maior que este caos.

E a única normalidade, está no fato que os meus sonhos não obedecem a qualquer regra de hierarquia.

Quando criança, praticamente um “esquizo espermatozóide”, eu vivia fazendo listinhas do tipo “meus três desejos”.

Até por que, eu nunca soube quando poderia aparecer o gênio pançudo da lâmpada.

Bem, por culpa da moral cristã, eu sempre me obrigava a colocar qualquer coisa como “paz para a humanidade” em primeiro lugar, mas a partir do segundo desejo eu recaía na mesquinharia.

Ah, eu sempre deixava uns desejos na suplência para o caso de encontrar um gênio que não soubesse contar direito, né?

Aprendi nesse período que: “ imaginar é a melhor parte de viver.”

Se eu contar quantas coisas idiotas e maravilhosas eu sonho antes de dormir, por exemplo, seria estudada por um algum cientista.

Pior: eu crio diálogos, faço roteiros, mudo os finais que não me agradam.

E olha, coloco até trilha sonora.

Apesar da paixão pela psicanálise, seria Jung quem me adoraria.

 Voltando ao sonhos, hoje o desejo mais possível e concreto é que eu aprenda a lidar com o tempo.

Com os dias, as horas, as semanas.

Queria muito não me perder neste emaranhado de compromissos e conseguir passear no Mercado Municipal numa terça-feira à tarde, sem culpa por desligar o celular ou por fingir que o tempo parou.

No entanto, é o impossível que me fascina…

Eu sonho em me conhecer melhor.

E por isso eu vou toda semana ao melhor psicanalista que conheço: José Waldemar.

Engraçado, a cada vez que ele me desestabiliza, fico um pouco mais perto de mim mesma.

E descer nas minhas profundezas pode ser um pesadelo, mas gosto do que vejo quando abro os olhos para dentro.

Honestamente, não gostaria de ser outra pessoa. Mas é claro, que deveria e/ou poderia ser bem melhor.

Meus outros sonhos beiram a fantasia, mas são só meus e tão improváveis quanto viver.

Por exemplo:

1º Eu sonho morar em outro país por um tempo. De preferência na Turquia, terra pela qual nutro um fascínio emplumado.

(Por hora me contento com viagens mais viáveis – $$$ – pois tenho o melhor parceiro nelas: Anderson.)

2º Eu sonho em dirigir livremente pelas estradas que o mapa indicar, arriscando o pouso, a comida e o band-aid na testa.

 (Eu tenho habilitação mas não dirijo, só de pensar na direção eu travo. E esse é um dos meus limites.)

3º Sonho aprender a cozinhar com calma.

4º Sonho morar em uma casa e ter um cachorro grande e brincalhão.

5º Sonho dormir até o meio-dia no domingo e não esquecer a o hidratante para o chuveiro quando entro no banho.

6º Sonho abrir a geladeira e encontrar mais que queijo, água, knorr e geléia.

7º Sonho não ter medo de insetos, de tomadas e do sol.

8º Sonho em não esquecer a data de aniversário de ninguém.

9º Sonho em aprender a fotografar com foco.

10º Sonho organizar meus livros e saber que “definição” é aquela.

11º Sonho entender certas coisas, juntar certos indícios e acreditar nos meus “certos” talentos.

12º Sonho escrever contos e não confundir minhas senhas.

13º Sonho não ter vergonha de mim mesma.

14º Sonho com a sensação de ordenar, mesmo que por um tempo, o caos de sentimentos em que vivo inclusa.

15º Sonho descobrir o poderoso brilho do que é cúmplice, do que é riso, do que é cabelo, do que é silêncio e do que é pó.

E ao final, sempre recaio no sonho de viver pra sempre esse novo amor (profundo e parceiro), que é muito mais do que só de viagens.

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– Saudades de PAPAI –

Luiz morreu há oito anos.

Eu sempre choro o dia 22 de Outubro, o mês do meu aniversário.

Estaria mentindo se dissesse que a dor é a mesma de oito anos atrás.

Não é!

O tempo se encarrega de colocar tudo em perspectiva: a ausência, a memória, a própria extensão da dor.

Mas isso não impede que, de vez em quando, esta imensa falta se torne palpável, concreta, irremovível.

Então eu chamo meus guindastes imaginários para retirar dali aquela pedra imensa.

Convoco meus pedreiros imaginários para recolocar lá o ladrilho que não existe mais.

Nada disso funciona, mas insisto.

“A ausência definitiva nunca é preenchida.”

A quem ficou, resta conviver com esta verdade do melhor jeito que puder.

 No limite, isto é que é viver.

Não há beleza na falta.

Não há poesia na morte.

Alguns se voltam para uma crença, para algum caminho metafísico.

Para mim, a única força possível vem da lembrança do que se disse, do que se fez, do que se viveu.

 E de papai, tenho a lembrança dos abraços apertados, das viagens, das tardes no Tribunal de Justiça após a escola.

Com ele descobri paixões, entre elas: os livros, os discos, as utopias.

Me lembro também das implicâncias e das cumplicidades que não caberiam em nenhuma máquina de calcular.

E de nossas longas conversas sobre as estrelas, a lua e o universo tão maior do que minha imaginação.

Foi ele quem me ensinou a gostar (MUITO) de comer, e de inventar receitas com mostardas.

Mas eu me lembro, acima de tudo, do olhar.

É o seu olhar que nunca sai de minha mente.

Papai tinha um olhar cheio de significados.

Era dono de um olhar para um mundo interior sem telhados ou paredes.

Hoje não é 22 de Outubro, mas estou emotiva e sentido muita falta dele.

E nestes longos anos, não tenho qualquer ilusão de que um dia tudo isso se transforme numa memória doce.

Esta memória nunca será doce.

Essa saudade será sempre funda, silenciosa, estranha.

É como uma dor de carpideira.

Algumas vezes a tristeza invade meus dias e minhas noites.

As vezes eu cedo, mas a vida não é uma curva ascendente.

Esse é um caminho íngreme, pedregoso e que exige força de alpinista.

Dias atrás sonhei com um tigre.

Isso deve estar relacionado como meus instintos, minha animalidade e a lealdade que costurou nossas duas vidas enquanto foi possível.

Alguns nem chegam perto disso, mesmo vivendo cem anos lado a lado.

Mas entre mim e papai é uma questão de memória funda, e tem um residual de gratidão.

E se a gente permite, a vida continua.

Ainda que a gente não compreenda os porquês e os comos disso tudo.

Um ano após outro, o tempo vai curando e recolocando tudo no seu “adequado” lugar.

No entanto, o que realmente dói é saber que este lugar não pode ser ocupado.

Nem por uma crença, nem por uma lembrança, nem pelo sonhar com um tigre.

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As 5 coisas que eu desejo – muito – um dia ser…

1. poliglota – falar em qualquer língua, entender tudo que dissessem. Assim, naturalmente, como um dom. sabe?

2. artista plástica – das boas, né. Dominar os pincéis, as tintas, as cores. fazer da tela um mundo de visões e maravilhas. Andar com um macacão velho, sujo de tinta, e um all star bem respingado.

3. coordenada – braços e pernas, por exemplo, poderiam se comunicar de vez em quando. Seria tão legal se eu não esquecesse um pé lá atrás ou não esquecesse o ombro quando estou virando para o outro lado.  Coordenação motora fina, então, seria a glória… já pensou? Recortar um desenho pequeninho sem mutilar ninguém? Pintar dentro das linhas?

4. localizada – assim, como se tivesse engolido um GPS.  Saber aonde ir, onde dobrar, quando retornar. Uma vez “liderei” um grupo em Ilhabela na busca pr um mirante, depois de uns 7 km, descobri que tinha lido o mapa ao contrário.  Eu só não apanhei porque fomos parar nuns bares maravilhosos, e todo mundo sabe que bêbado não tem rumo mesmo.

5. disciplinada – com os prazos, com o desejo de escrever (que sempre fica pra depois), com os retornos aos médicos, com os exames que ficam esquecidos na gaveta. É, tá. com as gavetas também.

Puxa, será que eu ainda tenho solução?

#Oremos

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Confissões de uma “quase” Balzaquiana.

Preciso confessar:

Eu invejo terrivelmente as pessoas de alma serena.

As lineares, as constantes, as bem tecidas.

Invejo esta felicidade lenta que surge em certos sorrisos, os sorrisos que derivam talvez de experiência, talvez de simplicidade, talvez de sabedoria, seja lá o que for: desconheço.

O que conheço é o intermitente, o que é e será mais, o que ainda vai chegar lá.

Isso é o que conheço desde sempre, por temperamento, por influência genética ou por mera irreflexão.

Eu sei, e também não sei, e que nesta cadência imoderada provoco-me um futuro a ser outro.

Mas há sempre um “mas”, para os imoderados. 

E então, na dinâmica do tempo, “mas”… como uma suspensão, e nada se move.

Desconfio que toda minha luz é um fogo tímido.

Todo o meu som, um acorde sumindo no silêncio.

E toda cena da minha encenação de vida, um gestinho irrelevante.

Talvez a salvação esteja na questão de que o sentimento mais intenso da inconstância que havia já não há.

No entanto, ao morrer levou – em partes – consigo o olhar que brilhava e a maravilha das manhãs eufóricas.

Também levou-me palavras, algumas vontades e as migalhinhas de pequenas atitudes de felicidades.

Acabou, e isso parecia bom, “mas”

Então por isso invejo terrivelmente as pessoas de alma serena.

Meu melhor amigo costuma dizer que somos opostos simétricos.

Ele é do tipo que não se define por advérbios de intensidade.

Porque nada é mais terrível, aos passionais, do que o limbo da falta de emoção.

Odeio o dia interior que nasce igual a cada manhã, sem nada para maravilhar.

Me angustia, mesmo assim eu conto os dias e as noites, para ver ressurgir o olhar que brilha.

Preciso de terremotos, nem que seja um pequeno abalo interior, uma coisa a querer… uma coisinha qualquer… que me salve.

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– Sorriso –

Sorriso, diz-me aqui o dicionário, é o ato de sorrir.

E sorrir é rir sem fazer ruído e executando contração muscular da boca e dos olhos.

O sorriso, meus amigos, é muito mais do que estas pobres definições, e eu pasmo ao imaginar o autor do dicionário no ato de escrever o seu verbete, assim a frio, como se nunca tivesse sorrido na vida.

Por aqui se vê até que ponto o que as pessoas fazem pode diferir do que dizem.
Caio em completo devaneio e ponho-me a sonhar um dicionário que desse precisamente, exatamente, o sentido das palavras e transformasse em fio-de-prumo a rede em que, na prática de todos os dias, elas nos envolvem.

Não há dois sorrisos iguais.

Temos o sorriso de troca, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de ceticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (por que não?) o de quem morre.
E há muitos mais.
Mas nenhum deles é o Sorriso.

O Sorriso (este, com maiúsculas) vem sempre de longe.
É a manifestação de uma sabedoria profunda, não tem nada que ver com as contrações musculares e não cabe numa definição de dicionário.
Principia por um leve mover de rosto, às vezes hesitante, por um frémito interior que nasce nas mais secretas camadas do ser.
Se move músculos é porque não tem outra maneira de exprimir-se.
Mas não terá?
Não conhecemos nós sorrisos que são rápidos clarões, como esse brilho súbito e inexplicável que soltam os peixes nas águas fundas?
Quando a luz do sol passa sobre os campos ao sabor do vento e da nuvem, que foi que na terra se moveu?
E contudo era um sorriso.

(José Saramago)

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– Enquanto AMA –

de todas as ilusões humanas, a idéia de andar só ou andar acompanhado é a que mais me fascina. não importa que idade você tenha, ou quanto Nietzsche de verdade tenha lido em sua vida. não importa o quanto você saiba que está sempre sozinho em suas decisões. não importa o quanto você saiba que seu mundo interior é o único mundo que você realmente pode conhecer, e ainda assim com imensas restrições.

é difícil aceitar que, embora o mundo exterior seja concreto, seus significados não passam de fantasmagoria. você não pode acessar os mistérios de outro ser humano, a não ser pela observação dos gestos e pela interpretação destes gestos a partir de seu próprio mundo interior. todo movimento que fazemos, como seres humanos, é sumariamente imaginário – e só ocorre a partir do único referencial que conhecemos, o nosso íntimo.

o amor é um destes lugares da imaginação em que recriamos a ilusão de não estarmos sós. não falo da relação concreta que envolve o amor, com suas grandes maravilhas e seus pequenos desastres (ou, às vezes, pequenas maravilhas e grandes desastres). falo do sentimento que nunca pode ser inteiramente expressado porque é de uma riqueza inacessível para o outro. o amor é um daqueles lugares do indizível, porque não há palavra, imagem ou gesto suficientemente preciso para representá-lo. não há vocabulário ou acervo capaz de fazer o outro compreender o quanto de amor há ali. é por isso que repetimos tanto e de tantos modos diversos, tentando cercar o outro de uma soma constante do nosso amor.

no entanto, por mais que exista um outro a quem amar, e que ele seja merecedor do nosso cuidado e do nosso tempo, a maior façanha do amor é esta ondulação interna que ele provoca. esta sensação de estar pleno de sentimentos fortes, intensos, reais. a sensação de estar vivendo. na expressão do amor, podemos ser mais ou menos generosos, mais ou menos dedicados, mais ou menos criativos. não importa. o que importa é esta qualidade que nos conferimos ao amar alguém. quando digo “você é especial” – por palavras, gestos ou olhares silenciosos -, estou dizendo “você é especial para mim, sou eu que te faço assim”. e, se sou capaz de te fazer especial, é porque tenho esta riqueza interna inigualável (“caso você ainda não tenha percebido o quanto sou único”).

somos todos passionais. uns mais, outros menos. uns gritam suas angústias, pedem explicitamente, atacam o objeto de amor. uns esperam, recolhem, se encolhem. seja como for, é um mundo intenso que está sendo vivido e experienciado. o mundo interior do qual partimos para todas as nossas aventuras e ao qual sempre retornamos, com mais bagagem e coisinhas a guardar.

as relações raramente acabam junto com o amor que sentimos. acabam antes, acabam depois. quando uma relação acaba, sofremos porque temos que enfrentar um processo longo de reacomodação. mas o que nos deixa perplexos, de fato, é quando percebemos que o amor que sentíamos acabou. quando olhamos uma pessoa e buscamos acessar aqueles velhos arquivos que nos faziam vivos pelo simples fato de estarmos os dois ali. não reconhecemos mais os conteúdos desses arquivos, eles agora parecem inadequados. não acompanhamos mais o andar singular daquela pessoa pelo corredor, ou entre as mesas de um restaurante, porque já não importa muito vê-la caminhar e importa menos ainda saber para quem ela está olhando. é neste momento que percebemos que algo do nosso interior já não está mais lá, onde costumava ficar.

neste momento, de uma estranha epifania, você finalmente sabe que o único mundo em que você pode navegar é o de suas emoções. você pode se guiar por metas, objetivos e planos. mas são as emoções que te fazem vivo. ao final o amor é esta capacidade interna de se sentir único. você quer ser ser vital, necessário, quer fazer a diferença (para alguém). o que você ama, em suma, é aquilo no qual você se torna enquanto ama.

Texo retirdo o blog http://marciabenetti.blogspot.com/

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